Os heróis amazônicos contra os Cavaleiros do Apocalipse

26 de maio de 2019 264

Tudo estava silencioso na clareira, quando um helicóptero desceu para levar as dezenas de mortos rumo ao Palácio do Planalto.
– Parece que a festa aqui foi das boas – disse o piloto coçando a cabeça. – Tem defunto pra tudo quanto é gosto.
– Foi ótima – respondeu o cavaleiro Messias. – E vai melhorar muito quando a gente botar a mão no que restou daquele saci desgraçado.
– Desculpa, chefe, mas não entendi – disse o piloto. – O senhor está dizendo que andaram brigando com um saci?
– Verdade verdadeira – confirmou o cavaleiro Messias. – Não só brigamos como ele levou mais de 500 tiros. Deve ter virado farelo, por isso não encontramos o corpo do amaldiçoado.
– Farelo? Duvido muito, o senhor me perdoe – discordou o piloto. – Mas ainda tá pra nascer o homem capaz de matar um saci.
O cavaleiro Messias pensou em mandar pra PQP aquele FDP, mas lembrou que tinha virado crente e não podia mais falar palavrão em público.
– Deixa de conversa fiada, piloto – arrematou o cavaleiro Messias arreliado. – Trata de levar a defuntada e entregar nas mãos daquele ministro com nome de pedra.
– Ônix, chefe – ajudou o pau mandado, perdão, o escudeiro-Moro.
– Ônix, isso. Ele vai deixar claro pro povo que não estamos de brincadeira.

ENQUANTO ISSO, NA MATA
Depois de cismar bastante, o Saci concluiu que era preciso tomar providências sérias para salvar a Amazônia daqueles assassinos.
Assim, procurou alguns amigos que viviam nas redondezas: a Iara, o Curupira, o Caipora, a Mula sem cabeça, o Boitatá, o Boto cor-de-rosa, a Cuca e a Boiuna.
– Meus irmãos – discursou o Saci depois de reunir os amigos noutra clareira ali perto. – Fomos invadidos por um bando de assassinos. Eles atiram pra matar. Até contra mim tentaram, os ignorantes. Precisamos fazer alguma coisa.
– Você tem alguma ideia? – perguntou a Iara, ainda sem compreender.
– Conversar com eles não adianta, isso já percebi – continuou o Saci. – Temos muito assassino na floresta, mas todo assassino tem seu motivo, por pior que seja esse motivo. Os grileiros e invasores de terras, por exemplo, mandam matar pra garantir suas ladroeiras.
– E tem os matadores de aluguel – lembrou o Curupira. – Esses são contratados por alguém e matam por dinheiro, sem remorsos e sem deixar rastros.
– E os latifundiários – acrescentou a Mula sem cabeça. – Quanto mais terras têm mais querem, e por isso mandam matar os pequenos proprietários.
– Verdade – concordou o Saci. – Só que esse bando não tem objetivo nenhum. Mata por puro prazer.
– Mas isso é horrível – disse a Iara, fazendo uma careta. – Nunca vi nada igual!
– Nem eu – admitiu o Saci. – Por isso marquei esta reunião com vocês.

DECIDINDO O QUE FAZER

Agachados numa roda, matutaram, matutaram, matutaram.
O Sol passou três vezes por cima da mata e eles lá, matutando.
A Lua passou de crescente a cheia e eles lá, matutando.
Até que o Saci levantou, espreguiçou e disse, bocejando:
– A única solução é prender esses assassinos e manter eles presos. Além disso, é preciso destruir as armas deles.
– Mas como vamos prendê-los, se não temos armas?
– Mas somos imortais – disse o Curupira, coçando um calcanhar no outro.
– E podemos fazer cordas com cipó, coisa que não falta por aqui, e amarrar uns nos outros – ponderou a Mula sem cabeça.
– E o que vamos fazer com eles, depois de amarrados? – perguntou o Caipora.
– Boa pergunta – concordou o Boitatá. – O que vamos fazer com eles?
Eles então se agacharam de novo e começaram a matutar no que fazer.
Matutaram, matutaram, matutaram.
O sol passou mais três vezes por cima da mata e eles lá, matutando.
Então o Boto cor-de-rosa deu um pulo e gritou:
– Já sei! Vamos botar todos eles de enxada na mão bem no meio do Sertão!