Para economista do Ibre, ‘governo falhou em criar clima favorável’

7 de abril de 2019 71

Do Estadão:

Coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), Armando Castelar considera que o governo Jair Bolsonaro apresentou planos “ambiciosos” para a área, mas nestes quase 100 dias vem pecando na articulação para garantir a aprovação da principal delas: a reforma da Previdência.

Ele vê no diálogo com parlamentares o único caminho para garantir que essa pauta passe no Congresso. Ainda assim, segundo Castelar, isso não vai garantir um crescimento substancial do País neste ano – sua estimativa é de uma taxa de, no máximo, 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Castelar é um dos participantes do evento – uma parceria entre o Estado e o Ibre – que vai analisar os 100 primeiros dias do governo, no próximo dia 12, no Rio.

Qual a avaliação que o sr. faz dos 100 primeiros dias do governo Bolsonaro?

 

Na economia, o governo veio com uma agenda ambiciosa, que combina uma parte de natureza fiscal, ligada à redução do déficit público e do papel do Estado, e garantir que o teto de gastos seja respeitado. E tem toda uma outra agenda que em certo sentido é ainda mais cara ao governo, que é a microeconômica, de redução de Estado, abertura econômica e redução da carga tributária, mas que não pode ser implementada sem outras coisas serem resolvidas porque o ambiente macroeconômico seria muito ruim para essas reformas poderem funcionar.

O governo está sendo eficiente em apresentar essa agenda?

Logo quando Bolsonaro deu posse aos ministros, Paulo Guedes (Economia) chegou a mencionar que iria soltar uma reforma a cada dois dias. Ele criou uma secretaria da privatização, falou em privatizar subsidiárias estatais, em reduzir a participação dos bancos públicos na economia, em abertura comercial. Lá no final de janeiro, começou uma atitude muito forte de que a reforma da Previdência deveria ser a grande prioridade deste início de governo. E aí essa agenda sumiu do noticiário, ficou só a reforma da Previdência.

Como o sr. avalia a ida e Paulo Guedes à Câmara? Amenizou a dificuldade de articulação com o Congresso?

 

Não conseguir desenvolver uma relação positiva com o Congresso compromete a dimensão do que será a reforma. Provavelmente, a mesma coisa pode acontecer com as outras reformas que venham a ser propostas na sequência, com esse improviso que se fez. Acho que a ida de Guedes à Câmara foi um bom começo – a gente viu a repercussão negativa quando ele desmarcou. Mas também evidenciou uma desorganização da base. Ninguém apareceu como defensor da reforma.

O presidente fez uma rodada de conversas com alguns partidos. Depois sinalizou que pode mudar o comando do MEC. É o caminho?

Não vejo outra forma. É importante o presidente conversar com os partidos. Mas há a demanda de o presidente se identificar com a reforma. Ele tem dado declarações dúbias a respeito. Não está identificado com a reforma da Previdência.

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