Para Guedes, Bolsonaro agiu ouvindo as ruas ao interferir na Petrobras impedindo aumento do diesel

17 de abril de 2019 225

As jornalistas Mônica Bergamo e Mariana Carneiro entrevistaram Paulo Guedes na Folha de S.Paulo.

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O sr. pode explicar o que houve na Petrobras? 

Eu estava lá fora, então, para mim, o som que chegava era assim: “Mexeu na Petrobras, no preço e tal’”

 

Então eu decidi não falar enquanto eu não me informasse. 

Foram os jornalistas que lhe informaram 

Foram os jornalistas. E começaram a chegar mensagens também. Então pensei: “Quando eu chegar [ao Brasil], eu vejo”. 

Eu imaginei lá fora: o presidente tem boa intuição política, ninguém é eleito presidente sem ter uma ótima intuição política.

 

E na chegada, vocês conversaram? 

Quando eu cheguei, ele me disse assim: “Pô, eu só perguntei [sobre o preço para o presidente da Petrobras]. Não tenho nada a ver com esse negócio, não. Eu perguntei: ‘Pô cara, você está colocando diesel no meu chope? No dia em que eu comemoro cem dias de governo, todo o mundo acendendo velinha, festejando, aí chega a notícia de que a Petrobras vai fazer assim e assim’”.

O presidente, no exercício natural de suas funções, questionou como, em 15 dias, o preço do diesel poderia subir 5%. O presidente tem todo o direito de se preocupar com potenciais greves, de saber quais são os critérios [de reajuste], porque a Petrobras é uma empresa mista [é controlada pela União].

E o que o presidente da Petrobras disse a ele? 

Disse que a empresa tem uma política de espaçamento [para reajustar os preços]. Mas que iria checar se houve alguma incorreção no cálculo, nos algoritmos de formação de preços. 

Agora, o importante não é o que aconteceu em um dia, em dois. O importante é filosoficamente saber qual é a regra. Existe a independência na formação de preços da Petrobras?

Existe? 

Do ponto de vista da dimensão econômica, sim. 

É a essência do programa liberal, os preços são formados no mercado e não há intervenção.

Se o presidente mete a mão em um preço-chave, não é só o valor da Petrobras que cai R$ 30 bilhões.

Na verdade, você tem quase US$ 1 trilhão embaixo do mar, o pré-sal, que perde 10% também.

Se começa a fazer intervenção política de preços, você pega todo o programa de concessões, todas as privatizações, vendas e cria a dúvida no investidor.

E o que está decidido?

Estamos conversando [com o presidente] sobre o curto prazo e o longo prazo. No longo prazo, a gente sabe que o preço do petróleo subiu no mundo inteiro. Por que só aqui teve esse troço? Monopólio. Nós tivemos conversa ontem e hoje.

O presidente diz: “Os caminhoneiros são importantes para o Brasil, não podemos arriscar fazer um movimento de imperícia qualquer, de greve, etc. só porque os investidores [querem]”.

Quando o Pedro Parente [que presidiu a estatal no governo de Michel Temer] começou a fazer reajustes diários [do preço dos combustíveis], as pessoas falaram: ‘“Agradaram aos financistas”.

Houve greve e ela afetou profundamente todo o mundo.

Entre esse reajuste diário [promovido por Parente] e o congelamento da Dilma [Rousseff], tem um enorme espaço.

E em qual ponto desse espectro vocês estão?

Do ponto de vista filosófico, nós estamos do lado das boas práticas de mercado. Tem que haver independência, mas de uma forma que as pessoas consigam fazer a sua função econômica, se planejar. 

A principal mensagem é a seguinte: tem a dimensão política, que provocou a pergunta do presidente sobre o diesel, que é uma pergunta válida de um líder político. A inflação de um ano inteiro é 3,8%, como é que em 15 dias sobe 5%? Estão jogando diesel no meu chope?

Uma greve traz problema de abastecimento, pode frear o Brasil todo, pode fazer o PIB [Produto Interno Bruto] cair mais 3%, 4%. Ele demonstrou que está com o ouvido na pista, está ouvindo a turma, está ouvindo o barulho.

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