Polícia apura envolvimento de mais um chefe de milícia em morte de Marielle... -

6 de março de 2019 316

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Documento revela que mais um chefe de milícia é investigado pelo homicídio de Marielle Franco e Anderson Gomes
  • Preso desde 2018, suspeito é policial civil e ficou em silêncio durante interrogatório na Delegacia de Homicídios

A DH (Delegacia de Homicídios) do Rio de Janeiro investiga o policial civil Rafael Luz Souza, conhecido como Pulgão, pelo possível envolvimento no duplo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em 14 de março do ano passado, informa documento judicial obtido pelo UOL.

Preso desde julho do ano passado, Pulgão é apontado pela Corregedoria da Polícia Civil como chefe de uma milícia que atua nos bairros de Realengo, Bangu e Padre Miguel, na zona oeste do Rio. Ele foi detido com uma metralhadora antiaérea .50, cinco fuzis, munição e dois carros roubados.

A principal linha de investigação da Polícia Civil relaciona o duplo homicídio aos integrantes de uma outra milícia, comandada pelo ex-oficial do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega (veja mais abaixo). Ele é tido também como chefe do chamado de "Escritório do Crime", um grupo de matadores de aluguel.

De acordo com fontes policiais, Pulgão é um ex-integrante do Escritório do Crime. Ele saiu do grupo após falhar numa ação que resultou no assassinato de um filho de um bicheiro.

Quase um ano após o crime, a polícia ainda não concluiu o inquérito a respeito das mortes de Marielle e Anderson. 

PORTADOR DE INFORMAÇÕES PRIVILEGIADAS

Pulgão é acusado de disputar territórios com o criminoso Wellington da Silva Braga, o Ecko, considerado atual chefe da Liga da Justiça, a maior milícia fluminense.

O setor de Inteligência policial do Rio afirma que Pulgão seria "portador privilegiado de várias informações acerca de vários crimes de homicídios" ocorridos em 2017 e 2018. 

A reportagem apurou que na prisão está custodiado, ele se encontra em uma "cela de seguro", ou seja, lugar reservado aos presos ameaçados de morte.

OFÍCIO DA DELEGACIA DE HOMICÍDIOS

Em 3 de dezembro de 2018, a DH pediu à Justiça que ele fosse escoltado da prisão até a sede da delegacia, no bairro da Barra da Tijuca, para prestar depoimento.

"Tal solicitação se faz necessária em razão de o citado ser investigado no inquérito policial 901-00385/2018", lê-se no ofício encaminhado ao juiz da 33ª Vara Criminal do Rio (veja fac-símile abaixo). O número é da investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson. O documento não especifica qual teria sido a atuação dele no duplo assassinato.

 

Pulgão foi ouvido na DH quatro dias depois. Durante o interrogatório, no qual se manteve em silêncio, foi questionado se era amigo ou conhecia "Capitão Adriano".

 

Os policiais se referiam ao ex-oficial do Bope (Batalhão de Operações Especiais), acusado de comandar a milícia de Rio das Pedras, também na zona oeste do Rio, e o Escritório do Crime.

Capitão Adriano também é suspeito de participar do duplo homicídio da vereadora e de seu motorista. Ele está foragido.

EMPRESÁRIO MORREU NA MESMA NOITE QUE MARIELLE

De acordo com seus advogados, em petição enviada ao STF (Supremo Tribunal Federal), ao chegar à DH, Pulgão foi informado pelos policiais que iria responder perguntas relacionadas a vários inquéritos de homicídios. Seus defensores pediram, sem sucesso, acesso aos outros inquéritos.

Por esta razão, Pulgão foi questionado sobre a morte do empresário Marcelo Diotti da Mata, assassinado a tiros na Barra da Tijuca, em circunstâncias semelhantes e na mesma noite em que morreram Marielle e Anderson. A munição usada no homicídio de Mata é a do mesmo tipo da encontrada pelos policiais quando prenderam o miliciano.

 

Divulgação/Polícia Civil
 
Armamento encontrado com Pulgão e seus comparsas em julho do ano passadoImagem: Divulgação/Polícia Civil

 

Marcelo da Mata era casado com a cantora Samantha Miranda, ex-mulher do ex-vereador Cristiano Girão, condenado pela Justiça do Rio por formação de quadrilha e crime eleitoral por comandar uma milícia em Jacarepaguá (outra localidade da zona oeste carioca). Durante o processo, Girão alegou que não havia "provas consistentes" de sua atuação como miliciano.

Depois de cumprir pena, Girão está em liberdade condicional desde 2015. Ele é um dos milicianos cuja presença foi registrada na Câmara de Vereadores do Rio dias antes da morte da vereadora e de seu motorista, como revelou o site The Intercept Brasil

ADVOGADOS RECORREM AO STF

Os advogados de Pulgão recorreram ao STF para ter acesso aos autos dos inquéritos policiais. Relator do caso, o ministro Ricardo Lewandowski negou o pedido de liminar, antes de julgar o mérito da ação.

A DH e o Ministério Público do Rio alegam que os casos correm em sigilo e por isso advogados não podem ter acesso aos autos. A reportagem ligou para os defensores e enviou email aos advogados de Pulgão e, até esta publicação, não obteve retorno.

No último dia 28 de fevereiro, a Justiça do Rio negou um pedido de liberdade de Pulgão.

*Colaborou Bernardo Barbosa, do UOL, em São Paulo

Flávio Costa, Luís Adorno e Sergio Ramalho

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, no Rio*