A DH (Delegacia de Homicídios) do Rio de Janeiro investiga o policial civil Rafael Luz Souza, conhecido como Pulgão, pelo possível envolvimento no duplo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em 14 de março do ano passado, informa documento judicial obtido pelo UOL.
Preso desde julho do ano passado, Pulgão é apontado pela Corregedoria da Polícia Civil como chefe de uma milícia que atua nos bairros de Realengo, Bangu e Padre Miguel, na zona oeste do Rio. Ele foi detido com uma metralhadora antiaérea .50, cinco fuzis, munição e dois carros roubados.
A principal linha de investigação da Polícia Civil relaciona o duplo homicídio aos integrantes de uma outra milícia, comandada pelo ex-oficial do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega (veja mais abaixo). Ele é tido também como chefe do chamado de "Escritório do Crime", um grupo de matadores de aluguel.
De acordo com fontes policiais, Pulgão é um ex-integrante do Escritório do Crime. Ele saiu do grupo após falhar numa ação que resultou no assassinato de um filho de um bicheiro.
Quase um ano após o crime, a polícia ainda não concluiu o inquérito a respeito das mortes de Marielle e Anderson.
PORTADOR DE INFORMAÇÕES PRIVILEGIADAS
Pulgão é acusado de disputar territórios com o criminoso Wellington da Silva Braga, o Ecko, considerado atual chefe da Liga da Justiça, a maior milícia fluminense.
O setor de Inteligência policial do Rio afirma que Pulgão seria "portador privilegiado de várias informações acerca de vários crimes de homicídios" ocorridos em 2017 e 2018.
A reportagem apurou que na prisão está custodiado, ele se encontra em uma "cela de seguro", ou seja, lugar reservado aos presos ameaçados de morte.
OFÍCIO DA DELEGACIA DE HOMICÍDIOS
Em 3 de dezembro de 2018, a DH pediu à Justiça que ele fosse escoltado da prisão até a sede da delegacia, no bairro da Barra da Tijuca, para prestar depoimento.
"Tal solicitação se faz necessária em razão de o citado ser investigado no inquérito policial 901-00385/2018", lê-se no ofício encaminhado ao juiz da 33ª Vara Criminal do Rio (veja fac-símile abaixo). O número é da investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson. O documento não especifica qual teria sido a atuação dele no duplo assassinato.
Os policiais se referiam ao ex-oficial do Bope (Batalhão de Operações Especiais), acusado de comandar a milícia de Rio das Pedras, também na zona oeste do Rio, e o Escritório do Crime.
Capitão Adriano também é suspeito de participar do duplo homicídio da vereadora e de seu motorista. Ele está foragido.
EMPRESÁRIO MORREU NA MESMA NOITE QUE MARIELLE
De acordo com seus advogados, em petição enviada ao STF (Supremo Tribunal Federal), ao chegar à DH, Pulgão foi informado pelos policiais que iria responder perguntas relacionadas a vários inquéritos de homicídios. Seus defensores pediram, sem sucesso, acesso aos outros inquéritos.
Por esta razão, Pulgão foi questionado sobre a morte do empresário Marcelo Diotti da Mata, assassinado a tiros na Barra da Tijuca, em circunstâncias semelhantes e na mesma noite em que morreram Marielle e Anderson. A munição usada no homicídio de Mata é a do mesmo tipo da encontrada pelos policiais quando prenderam o miliciano.
Marcelo da Mata era casado com a cantora Samantha Miranda, ex-mulher do ex-vereador Cristiano Girão, condenado pela Justiça do Rio por formação de quadrilha e crime eleitoral por comandar uma milícia em Jacarepaguá (outra localidade da zona oeste carioca). Durante o processo, Girão alegou que não havia "provas consistentes" de sua atuação como miliciano.
Depois de cumprir pena, Girão está em liberdade condicional desde 2015. Ele é um dos milicianos cuja presença foi registrada na Câmara de Vereadores do Rio dias antes da morte da vereadora e de seu motorista, como revelou o site The Intercept Brasil.
ADVOGADOS RECORREM AO STF
Os advogados de Pulgão recorreram ao STF para ter acesso aos autos dos inquéritos policiais. Relator do caso, o ministro Ricardo Lewandowski negou o pedido de liminar, antes de julgar o mérito da ação.
A DH e o Ministério Público do Rio alegam que os casos correm em sigilo e por isso advogados não podem ter acesso aos autos. A reportagem ligou para os defensores e enviou email aos advogados de Pulgão e, até esta publicação, não obteve retorno.
No último dia 28 de fevereiro, a Justiça do Rio negou um pedido de liberdade de Pulgão.
*Colaborou Bernardo Barbosa, do UOL, em São Paulo

