Por que Disney decidiu cortar nomes do Fox Sports em fusão com ESPN.

15 de dezembro de 2020 68

Acusada de promover um desmanche total no Fox Sports, com a retirada de programas e a dispensa de inúmeros profissionais, a Disney evita falar publicamente sobre a polêmica. Internamente, no entanto, tem o discurso na ponta da língua na hora de explicar as decisões recentes. O comando do grupo, feito por profissionais da ESPN Brasil, se defende e ressalta que alguns pontos não vêm sendo levado em conta no debate.

Nas conversas, os executivos destacam o prejuízo financeiro do Fox Sports, principalmente após a Copa do Mundo de 2018; salários mais altos que a média da "TV irmã"; e a não-aceitação da famosa cláusula de exclusividade por parte de alguns dos profissionais que não tiveram seus contratos renovados.

As informações desta reportagem foram levantadas com conversas entre executivos da empresa nos últimos dias. Vale ressaltar que, das dispensas realizadas, os casos mais complexos foram dos narradores Marco de Vargas e Eder Reis e do comentarista Leandro Quesada. Todos tinham vencimentos longos de acordo, até 2022, e tiveram seus contratos rescindidos. Eles prometem entrar na Justiça, alegando descumprimento de cláusulas.

Item por item, o UOL Esporte percorre os motivos dos cortes e o lado alegado pela empresa, que alega em sua defesa que mantém o Fox Sports ainda competitivo em termos de audiência.

1) Direitos foram mantidos e Fox Sports ganhou Premier League, NFL e outros.

Na ata de aprovação da fusão, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) dizia apenas que a Disney deveria manter o Fox Sports funcionando até janeiro de 2022. Para isso, a Libertadores teria que ser exibida totalmente no canal até lá. Para manter o canal "em alta", a Disney também entendeu que deveria colocar torneios importantes para preencher a grade, como a Premier League (Campeonato Inglês), a NFL (futebol americano) e a La Liga (Campeonato Espanhol).

Em contrapartida, a Disney determinou o fim de programas da casa. Saíram do ar, somente neste segundo semestre, atrações como "Central Fox", "A Última Palavra", "Jogo Sagrado", "Aqui com Benja", "Bom Dia Fox", "A Última Palavra" e "Giro Fox". Ou seja, a Fox virou um canal de eventos.

Segundo a imprensa americana noticiou no período de compra da Disney pela Fox, os canais esportivos não eram o foco do grupo. Os canais esportivos da Fox na América Latina entraram no negócio como uma parte da conversa, e não como uma prioridade de investimentos. O objetivo era ter os estúdios de cinema da Fox para incrementar o Disney Plus, plataforma de streaming recentemente lançada pela companhia.

2) Prejuízo financeiro acumulado do Fox Sports.

Outra alegação da Disney para essa redução da operação do Fox Sports são os custos. Em junho passado, o UOL Esporte noticiou que a Disney estava pegando a emissora esportiva com um déficit milionário - aproximadamente, R$ 120 milhões. O fato foi agravado após a Copa de 2018.

Sem conseguir um retorno financeiro que pagasse os gastos, por não conseguir fechar todos os pacotes de patrocínio da cobertura na Rússia, a Fox demitiu em meio ao Mundial seu vice-presidente comercial, Arnaldo Rosa, por não atingir as metas previstas. Além disso, o Cade disse que a empresa poderia encontrar um equilíbrio econômico-financeiro, se quisesse, na aprovação do acordo. É nessa tese que a Disney se baseia para cortar tanto.

3) Falta de comprador.

Desde 2018, atendendo pedido do Cade, a Disney até se dispôs a tentar um comprador para o canal esportivo, segundo afirmou o próprio órgão no julgamento da situação, em maio. Entre os compradores, figurou a espanhola Mediapro, dona de direitos como os jogos fora de casa da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa e do Campeonato Espanhol. Ao ver o tamanho da dívida, considerada impagável a médio e longo prazo, houve desistência. A Rio Motorsports também se mostrou interessada, mas o Cade não viu nenhuma proposta concreta sobre o assunto.

4) Salários nas alturas.

A Disney fez uma auditoria para saber quanto ganhavam nomes da ESPN e Fox Sports. A diferença assustou executivos americanos, segundo apurou a reportagem. Na média, alguns profissionais do Fox Sports chegavam a ganhar três vezes mais que um nome, na mesma função, que trabalhava na ESPN.

5) Exclusividade passou a ser uma exigência da Disney.

Desde a fusão, a grande maioria dos profissionais passaram a participar de programas dos dois canais. Na renovação da maioria dos contratos, a Disney exigiu uma cláusula de exclusividade em todas as mídias - ou seja, profissionais sequer poderiam ter um canal no YouTube. Uma parte aceitou, mas outra recusou e reclamou. O caso mais concreto foi de Benjamin Back, que não aceitou a proposta e deixou a empresa para ficar trabalhar no SBT e em outros projetos.

6) Disney adiou a reformulação por causa da pandemia.

No planejamento inicial para a reformulação, feito no início do ano, a ideia da Disney era que, se aprovada a fusão ainda no primeiro semestre de 2020, a integração de equipes e não renovações deveria acontecer em setembro. Porém, com a pandemia do novo coronavírus, o fato foi adiado até dezembro, último mês válido dos acordos.

7) Cláusula do Cade.

Itens do Cade foram favoráveis à situação que aconteceu no Fox Sports. Isso revoltou profissionais dispensados, que alegam que o órgão do governo "lavou as mãos". Mas a ata de aprovação do negócio manifesta que a Disney poderia fazer o que fez recentemente. No documento, o Cade indica, no item 3.5, que "excetuando-se as restrições expressas acima, permite-se a integração comercial, administrativa e operacional da Fox Sports Brasil com a TWDC (The Walt Disney Company), em todos os seus aspectos, incluindo operações e aquisições de direitos esportivos, visando ganhos de eficiência, redução de custos e equilíbrio econômico-financeiro". Ou seja, tecnicamente, a Disney está confiante em.