Porto Velho volta a encenar seu drama anual: alagam-se ruas, casas e promessas
CAOS
A tragédia da coleta de resíduos sólidos em Porto Velho não é um acidente; é a consequência direta de uma deliberação institucionalmente míope. O clamor da população, agora confrontada com montanhas de lixo, expõe a falha sistêmica de instâncias que se julgaram aptas a arbitrar sobre serviços essenciais com base em uma interpretação normativa descontextualizada.
LITERALIDADE
O texto original acerta ao sublinhar que a insistência na literalidade da norma, sem considerar a complexidade da logística de limpeza urbana, era uma fórmula para o desastre. A decisão de primeira instância, que ensaiou um movimento de mediação, representava o único sopro de sensatez. No entanto, o desenrolar posterior demonstrou que a celeridade requerida pelo interesse público foi suplantada pela morosidade burocrática.
SELETIVIDADE
O resultado é previsível e socialmente regressivo: a população de baixa renda, residente em áreas periféricas, torna-se o ônus desse imbróglio, enfrentando o iminente risco de surtos sanitários. Em contraponto, a minoria abastada, instalada em condomínios de luxo, permanece blindada por soluções de coleta privada. Essa disparidade evidencia a seletividade do impacto da ineficiência estatal.
INÉRCIA
A responsabilidade por este impasse na capital deve ser imputada às entidades que, nas fases administrativa e judicial, optaram por criar obstáculos regulatórios em vez de atuar como facilitadores preventivos. O tempo despendido na inércia processual, registrado nos autos, é um atestado de desconexão.
GARANTIDORA
A crítica, portanto, não recai apenas sobre a interpretação fria, mas sobre a indiferença de burocratas que parecem alheios às consequências sociais de seus despachos. A realidade, meus caros, é que a eficácia da Justiça deve ser medida pela sua capacidade de garantir a saúde pública, e não apenas pelo rigor filológico de suas sentenças.
QUALIDADE
O cerne da questão, como bem aponta outros colegas, reside na ausência de peso dado à expertise técnica. Em um serviço contínuo e vital, como a gestão de resíduos em um município de dimensões consideráveis, a exemplo de Porto Velho, o critério de capacidade operacional deveria ter primazia sobre o mero preço. Não se trata de defender uma ou outra empresa por razões publicitárias, mas de reconhecer que o interesse coletivo é vilipendiado quando se permite que "empresas cartoriais" — ou seja, concorrentes sem histórico comprovado e tecnologia adequada — vençam certames essenciais.
PESTE
Com o acúmulo de lixo na área urbana da capital e, pior, nos distritos e no Baixo Madeira, a situação transborda do administrativo para o sanitário. A crítica final é a mais pungente: a lentidão da Justiça, exacerbada por liminares diversas e divergentes, corre o risco de ser lembrada não por sua jurisprudência, mas por ter catalisado uma peste urbana.
DESCONEXÃO
O cidadão tem o direito e o dever de exigir que a proteção do bem comum prevaleça sobre a omissão e o formalismo deslocado. A única conclusão inegável é que a desconexão da norma com a realidade está cobrando seu preço, e é a coletividade quem paga.
TRAGÉDIA
O problema não está exatamente na administração, mas na fé quase religiosa de que a forma como foi escolhida resolve tudo. O resultado é sempre o mesmo: vence a empresa mais barata, invariavelmente a menos capaz. Contrata-se um consórcio de aventureiros para operar um sistema que exigiria bons profissionais e planejamento, não improviso e retórica. Depois, quando o caos se instala, aplicam-se multas como quem joga água benta sobre cadáver. A concessionária é um monumento à inépcia — e o contribuinte, refém dessa pantomima, paga caro para assistir à tragédia do serviço público terceirizado que não cumpre aquilo para o qual foi contratado.
CHUVAS
Com as primeiras chuvas, Porto Velho volta a encenar seu drama anual: alagam-se ruas, casas e promessas. Os bueiros entupidos e as “bocas de lobo” transformadas em sarcófagos de lixo são o retrato da cidade que produz entulho mais depressa do que soluções. A prefeitura anuncia medidas preventivas, mas o problema nasce na coleta precária e na empresa que não consegue cumprir o básico. O lixo que se acumula nas calçadas desce triunfante com as enxurradas, como símbolo da desordem. E o que poderia ser um simples período de chuvas transforma-se em mais uma temporada de caos — previsível, repetida e lucrativa apenas para os mesmos de sempre. E quem não tem culpa pelo caos é quem paga a conta.
LABIRINTOS
O processo de escolha da empresa encarregada da coleta de lixo arrasta-se desde a gestão anterior que, sejamos corretos, tentou dar uma solução definitiva ao problema. Mas (repitamos) acabou enredada pela própria engrenagem estatal — uma burocracia infernal e um festival de interpretações normativas levadas à risca, como se a letra fria da lei fosse mais importante que a vida real das cidades. O resultado foi a paralisia completa: um impasse que atravessou governos, desperdiçou tempo e paciência, e agora atinge a todos. A máquina pública, incapaz de decidir, criou o seu próprio labirinto.
EXCEPCIONALIDADE
Não é comum a coluna RESENHA POLÍTICA circular nas quintas-feiras, mais a excepcionalidade do problema nos obriga tecer comentários críticos em razão dos interesses coletivos. Embora colocar a mão lixo nunca seja uma boa opção. A excepcionalidade faz a ocasião.
MAIS LIDAS
Em depoimento, motorista de Haddad muda de versão sobre ação da PM
Nome de operação da PF contra Lulinha incomoda entorno de Lula
Os nomes do PT que correm por fora para suceder Lula
RESENHA POLITICA (ROBSON OLIVEIRA)
Jornalista, Advogado e colaborador do www.quenoticias.com.br - contato: robsonoliveirapvh@hotmail.com