Prisão de Temer acirra reação à Lava Jato no Congresso. Por Helena Chagas

10 de maio de 2019 160

Publicado originalmente no site Os Divergentes

POR HELENA CHAGAS

Aparentemente, não há relação direta entre os dois principais fatos políticos de hoje: a volta do ex-presidente Michel Temer à prisão e a derrota do ministro Sergio Moro na comissão especial do Congresso que examina a MP 870 e tirou o Coaf da Justiça para a Economia. Mas são dois capítulos do mesmo enredo, que tem como trama central a influência da Lava Jato nas decisões do Congresso e a reação do establishment político. Vai ficando claro que tudo continua girando em torno disso – e que votações importantes, como a da Previdência, podem acabar sendo atropeladas.

A prisão de Temer não é uma novidade, e não se achará, no Congresso, um só politico – do MDB ou de qualquer outro partido – disposto a suar a camisa na defesa do ex-presidente, agora réu em seis ações. A questão não é Temer, mas sim o velho efeito Orloff sobre boa parte dos políticos: “eu sou você amanhã”, tem muita gente pensando a esta altura. Na tarde desta quarta, no Cafezinho do Senado, um personagem importante contava que, entre seus pares, havia grande apreensão com a situação de Michel Temer, pois “a fila anda”.

Com o ex-presidente preso, boa parte de seus companheiros do MDB e de políticos de partidos do Centrão, como o DEM, o PR, o PP, o PRB e outros, igualmente citados na Lava Jato e assemelhadas, tendem a paralisar votações e articulações congressuais para colocar no topo da lista de prioridades uma ofensiva para limitar o poder e o alcance das ações d dos agentes de investigação.

Tal reação vem sendo articulada há tempos, e ainda não é possível avaliar sua dimensão, mas uma coisa é certa: ninguém vota Previdência e outras reformas profundas num clima desses. Ao contrário, a pauta passa a ser objeto de barganha para aprovação de medidas para conter a Lava Jato.

A derrota de Moro – e, por tabela, do Planalto – nesta manhã faz parte dessa ofensiva e deve ser a primeira de uma série. Bolsonaro e seus articuladores sabem disso, e esta pode ter sido a razão pela qual eles, inicialmente, tenham concordado em tirar o Coaf de Moro para apaziguar os ânimos parlamentares. O ex-juiz, porém, parece ter esticado a corda no Planalto, acenando até com um eventual pedido de demissão, e reenquadrou o chefe.

O assunto ainda será votado nos plenários da Câmara e do Senado,e em tese ainda seria possível que o Coaf voltasse à Justiça. Todo mundo sabe, porém, que a questão não é exatamente o Coaf – até porque o ministro Paulo Guedes já anunciou publicamente que manterá a mesma estrutura e funções dadas pelo colega na Justiça. O órgão passou a ser, isso sim, símbolo de uma briga bem maior, da qual dependerá o destino de muita gente daqui para frente, incluindo aí o da Lava Jato e o do próprio Sérgio Moro.