Projeto de distribuição de óculos bancado com emendas vira caso de polícia

12 de janeiro de 2026 48

Polícia Civil do Distrito Federal abriu um inquérito para apurar possíveis irregularidades na destinação e na execução de emendas parlamentares que financiaram um projeto social de distribuição gratuita de óculos e lentes de grau. A iniciativa, apresentada como ação social para atender crianças da rede pública de ensino, começou a levantar questionamentos desde que foi lançada.

O projeto “Visão para Todos” começou a ganhar visibilidade a partir de 2023, impulsionado por emendas parlamentares que somam, no total, R$ 4 milhões. Os recursos, contabilizados até 2025, foram destinados tanto por deputados distritais da Câmara Legislativa do DF quanto por deputados federais.

O objetivo declarado era garantir acesso à correção visual para estudantes sem condições financeiras de arcar com os custos do tratamento oftalmológico em clínicas particulares. Mas a execução do programa se tornou objeto de investigação a partir de uma denúncia recentemente formalizada na PCDF.

Embora não figure oficialmente como responsável pelo projeto, o ex-deputado distrital e policial civil aposentado Carlos Tabanez (MDB), é apontado como autor e beneficiário político direto da iniciativa.

Tabanez se candidatou a distrital em 2018, mas não obteve votos suficientes para se eleger. Ficou na suplência. Em 2022, acabou chamado para ocupar uma cadeira na Câmara Legislativa, onde permaneceu de março a dezembro.

Naquele mesmo ano, candidatou-se novamente, sem sucesso. Foi então que, após a derrota, ele teria negociado o projeto com outros parlamentares, como estratégia para se manter presente na cena política.

A investida na divulgação do programa social ligou o alerta de autoridades. Imagens juntadas ao inquérito aberto pela Policia Civil indicam que o formato extrapolou o caráter institucional e se aproximou da autopromoção, já que o nome do ex-deputado aparecia sempre associado ao projeto. Tabanez tentará disputar, mais uma vez, a mesma cadeira nas eleições deste ano.

‘Organização familiar’
Corrobora a suspeita o fato de a estrutura do Instituto de Cidadania e Desenvolvimento Social (Incide), organização responsável por receber os recursos das emendas parlamentares, ser comandada por Kelly Fragoso, mulher de Carlos Tabanez.

Além disso, o endereço da entidade é o mesmo da GSI, empresa de segurança privada de propriedade do ex-deputado. Outros participantes do projeto, segundo a investigação policial, seriam funcionários da firma.

Com desenvoltura entre os titulares de parlamento, Tabanez conseguiu arrecadar R$ 4 milhões para o projeto. Contudo, após pouco mais de um ano, órgãos do governo do Distrito Federal encarregados de fazer os repasses, como as secretarias de Justiça e Cidadania, de Cultura e Economia Criativa e até a de Turismo, passaram a barrar a liberação dos recursos. A invertida fez com que o valor executado se limitasse a R$ 1,8 milhão.

Oficialmente, as secretarias alegaram incompatibilidade entre as atribuições institucionais e o objeto fim do programa social. Procurado pela coluna, Tabanez negou irregularidades e diz que estaria sendo vítima de perseguição política (veja abaixo).

A Secretaria de Justiça e Cidadania do DF informou que a execução das emendas para o projeto se deu no período de 18 de dezembro de 2024 a 27 de junho de 2025. Segundo a pasta, o investimento total foi de R$ 699,9 mil “para oferecer atendimento oftalmológico gratuito a estudantes da rede pública de ensino fundamental I”.

“Durante a vigência da emenda, foram disponibilizados 2,1 mil atendimentos oftalmológicos gratuitos, com consultas médicas e exames de vista, e realizados pelo menos 1.550 atendimentos com entrega de óculos com lentes corretivas aos alunos que necessitaram, garantindo assim melhores condições de aprendizado e inclusão social”, diz ainda a nota.

Já a Secretaria de Cultura e Economia Criativa afirmou que o “Visão Para Todos” foi executado entre dezembro de 2023 e maio de 2024, cumprindo todos os critérios regulares e tendo sua prestação de contas aprovada.

“Vale ressaltar que tal projeto apresentou em seu objeto atividades de cunho cultural, o que justifica a sua execução por esta pasta. Reforçamos que em 2025 o mesmo projeto foi apresentado, porém, como no objeto não houve comprovação de atividades culturais, o mesmo não foi aprovado pelo Grupo Executivo da Secec-DF responsável por analisar as propostas de projetos decorrentes de emendas parlamentares que chegam até esta pasta”, acrescentou a pasta.

A Secretaria de Turismo, por sua vez, confirmou ter sido procurada para coordenar parte da liberação das emendas destinadas ao projeto social do ex-deputado, mas disse que as tratativas não foram adiante porque não havia afinidade entre a iniciativa e as atribuições da pasta.

À coluna, o ex-deputado Tabanez afirmou não ter sido notificado sobre o inquérito instaurado pela Polícia Civil. “Se houver algo, será investigado e a verdade virá à tona”, disse.

Tabanez declarou que o Visão para Todos foi criado em 2019, sem recursos públicos, e só passou a receber verbas do governo a partir de 2023. Ele diz que todas as prestações de contas foram apresentadas, e que inclusive houve devolução de valores.

O ex-deputado atribuiu a denúncia a disputas políticas. “Desde que passei a criticar o governo Ibaneis e declarei apoio a Arruda, esse tipo de falsa denúncia virou rotina”, afirmou.

Fonte: Caio Barbieri