“Rei da sucata” é apontado como líder de fraude bilionária no DF

28 de agosto de 2025 31

Em junho de 2021, o nome de Rodrigo Leonardo de Lima Alcântara (foto em destaque) ganhou espaço nas páginas policiais. Conhecido como o “Rei da Sucata”, ele foi preso em uma mansão de 3 mil metros quadrados, na Pampulha, em Belo Horizonte, acusado de enriquecer com o comércio clandestino de cobre roubado. Na ocasião, pagou uma das maiores fianças já vistas no país: R$ 1 milhão.

Quatro anos depois, o empresário reaparece no centro de um esquema bilionário de fraude fiscal desmantelado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que ligou seu nome a uma complexa rede de empresas fantasmas, movimentações financeiras suspeitas e lavagem de dinheiro.

As investigações revelam que o esquema de Alcântara começou em junho de 2021, com a abertura da primeira de 31 empresas noteiras – negócios de fachada criados apenas para emitir notas fiscais falsas. Em apenas 48 horas, uma dessas firmas chegou a movimentar R$ 63 milhões em notas frias.

Essas empresas, muitas vezes registradas em nome de pessoas humildes — até beneficiários do Bolsa Família —, emitiam documentos que simulavam operações milionárias de compra e venda de metais. O dinheiro “esquentado” seguia para duas companhias de fachada em Tocantins, que repassavam notas ao núcleo principal da fraude, sediado em Minas Gerais e com braços em Goiás e Espírito Santo.

“Esses ‘testas de ferro’ eram empregados de empresas ligadas ao mentor do esquema, que já atuava no ramo de sucata e metais”, explicou à coluna a delegada Marcela Lopes, chefe-adjunta da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Dot/Decor).

A engrenagem da lavagem

Se o sistema de notas falsas era o motor da fraude, a lavagem de dinheiro foi o combustível que manteve o esquema bilionário de pé. De acordo com a PCDF, Alcântara e seus aliados inovaram ao utilizar Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) como ferramenta para dar aparência de legalidade às movimentações.

Mais de 90% dos direitos creditórios de um dos fundos analisados eram vinculados a empresas do grupo criminoso. “Foi a primeira vez que encontramos esse tipo de uso em um esquema de fraude fiscal”, detalhou Marcela Lopes.

Além dos fundos, o dinheiro ilícito foi transformado em patrimônio ostensivo: 90 veículos, um helicóptero, um avião King Air avaliado em cerca de R$ 10 milhões e um haras em Minas Gerais, que movimentava valores 17 vezes maiores que sua renda declarada. A coluna apurou que o haras é o VJR.

Do cobre às notas frias

Essa não é a primeira vez que Alcântara aparece como protagonista em investigações bilionárias. Em Minas, ele já havia sido apontado como um dos maiores receptadores de cobre roubado do país, fornecendo matéria-prima reciclada para grandes indústrias.

Para mascarar a origem do material, segundo a polícia, o cobre era triturado e derretido antes de chegar às fábricas.
Na época, a Receita Estadual estimou um prejuízo de R$ 250 milhões em impostos sonegados apenas em Minas Gerais.

O que está em jogo agora

Na Operação Falso FIDC, deflagrada nesta semana, a PCDF cumpriu 15 mandados de busca e apreensão, sequestrou 11 imóveis, além de bloquear cotas de fundos de investimento avaliadas em R$ 95 milhões.

A suspeita é de que Alcântara era o mentor e beneficiário final do esquema, embora as empresas estivessem em nome de empregados e laranjas.

Agora, os próximos passos da investigação miram no detalhamento da atuação de cada integrante e no rastreamento dos valores. Alcântara e demais investigados poderão responder por organização criminosa, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e crimes tributários.

 

Fonte: Mirelle Pinheiro