Sem candidatos à reeleição, partidos se mobilizam pelo Senado no Ceará e em SP

16 de fevereiro de 2026 20

Em cenário inusual, os quatro senadores em fim de mandato por Ceará e São Paulo não devem disputar a reeleição em outubro, quando 54 vagas serão renovadas na Casa Alta do Congresso Nacional.

O ocaso dos incumbentes e a importância dos dois estados para a disputa presidencial embaralham as negociações nos grupos do presidente Lula (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), protagonistas da polarização nacional, para definir seus candidatos ao cargo.

Fragilidade dos senadores movimenta as cartas em SP

No maior colégio eleitoral do país, há uma desconexão entre as principais forças políticas e a representação no Senado. Eleita sem se associar a petismo ou bolsonarismo em 2018, Mara Gabrilli (PSD) mantém uma atuação distante dos dois polos e ligada a bandeiras como o combate ao feminicídio.

Com o PSD na base do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) — tem o vice, Felício Ramuth, e Gilberto Kassab como secretário de Governo –, a senadora disputaria espaço com integrantes de partidos do MDB ao PL, que apoiam a reeleição do governador, se buscasse renovar o mandato. Ela deve concorrer a deputada estadual.

Alexandre Giordano (MDB), por sua vez, chegou ao posto após a morte do titular, Major Olímpio, vitimado por complicações da covid-19 em março de 2021. Pouco atuante, o parlamentar não tem trajetória política prévia e, mesmo herdando a vaga de um nome da direita, apoiou Guilherme Boulos (PSOL) nas eleições de 2024. Não deve disputar as eleições de outubro.

Simone Tebet

Simone Tebet: terceira colocada na eleição presidencial de 2022, virou alvo governista para concorrer ao Senado

Sem ligação com os atuais representantes, Lula trabalha para ter ao menos um de seus ministros na corrida. Simone Tebet (MDB), do Planejamento, deve transferir o domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul, onde foi senadora, para São Paulo, e se colocou “à disposição” do presidente. Para disputar no estado, porém, a ex-presidenciável terá de mudar de partido, uma vez que o MDB está alinhado a Tarcísio e busca espaço em sua chapaO PSB já a convidou para se filiar.

O partido do vice-presidente Geraldo Alckmin também fez o convite à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com o mesmo objetivo. Eleita deputada pelo estado em 2022, pela Rede, a ex-petista vive uma crise no partido que fundou, mas tem menos entraves para fazer a troca. Um levantamento divulgado em 11 de fevereiro pela Paraná Pesquisas mostrou Marina na segunda posição pelo Senado, atrás de Fernando Haddad (PT).

“Plano A” do PT para repetir o que fez na última eleição e concorrer ao governo contra Tarcísio, o ministro da Fazenda não deseja ser candidato. A intenção de garantir um palanque forte para Lula no estado, no entanto, provocou um movimento interno para convencê-lo a mudar de ideia, encampado pelo próprio presidente.

Neste cenário, lançá-lo ao Senado surgiu como alternativa de convencimento. Haddad vem de três derrotas seguidas nas urnas — além de 2022, perdeu para Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2018 e, em 2016, quando tentou se reeleger prefeito de São Paulo — e, com Tarcísio favorito à reeleição, teria melhores condições de conquistar uma das duas vagas no Senado sem a mácula de um novo revés.

Do outro lado, o bolsonarismo perdeu seu principal nome para a disputa desde que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) se autoexilou nos Estados Unidos para articular sanções do governo Donald Trump aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), tornou-se réu na corte e perdeu o mandato na Câmara.

Com o filho do ex-presidente distante, o grupo vive uma indefinição em que são mencionados o deputado estadual Gil Diniz (PL), aliado de Eduardo, a deputada federal Rosana Valle (PL), aliada da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e até o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL). Nenhum gera consenso.

Guilherme Derrite: pré-candidato Senado na chapa de Tarcísio

Mais consolidadas estão as pré-candidaturas de Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual da Segurança Pública, e do deputado federal Ricardo Salles (Novo). O primeiro é considerado uma “vaga de Tarcísio” na chapa, e não do bolsonarismo, enquanto o segundo tem uma relação atribulada com o grupo e trocou de partido para manter a candidatura sem depender desse apoio.

Fora dos campos da polarização, o deputado Paulinho da Força lançou pré-candidatura pelo Solidariedade, partido que comanda, e a vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil) declarou intenção de disputar o cargo se conseguir se transferir para o Missão, sigla lançada pelo Movimento Brasil Livre que estreará nas urnas em outubro.

Ausências têm peso no Ceará

No terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste, não falta força política aos senadores que, por razões distintas, não pretendem renovar o mandato. Favorito natural à primeira vaga, o ex-governador Cid Gomes (PSB) trabalha para emplacar um aliado, o deputado federal Júnior Mano (PSB), à própria sucessão.

Eduardo Girão (Novo), uma das principais lideranças da direita no estado, é pré-candidato a governador. Mesmo com um desempenho ruim na eleição para a prefeitura de Fortaleza em 2024, quando foi o quinto mais votado, o senador ganhou apoio de Michelle Bolsonaro para se consolidar como representante do bolsonarismo na corrida.

Os movimentos do campo, no entanto, são difusos. O PL costurou um acordo para apoiar Ciro Gomes (PSDB) na eleição estadual e ocupar uma das vagas ao Senado na chapa, conforme relatou o próprio senador Flávio Bolsonaro, presidenciável da sigla, na ocasião. Na equação, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL), chamado por Ciro de “meu senador”, seria o indicado.

Capitão Wagner: ex-deputado foi chamado de ‘senador’ por Ciro Gomes em evento

Capitão Wagner (União Brasil) se tornou favorito para a segunda vaga nesta chapa. O ex-deputado se afastou do bolsonarismo nos últimos anos, depois de representar o campo nas eleições para o governo do estado, em 2022, e para a prefeitura de Fortaleza, em 2020 — em ambas, terminou na segunda posição.

Questionada por lideranças do bolsonarismo — como a própria Michelle — que defendem apoio a Girão e uma candidatura “mais à direita” ao Senado, como a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), a chapa formada por Ciro, Alcides e Wagner tem sido aventada pela oposição cearense como mais competitiva para enfrentar o governador Elmano de Freitas e encerrar um ciclo de três gestões petistas no estado.

José Guimarães: favorito do PT para candidatura ao Senado

No campo governista, a ausência de Cid embaralha uma disputa que, mesmo com o pessebista, já era marcada por um congestionamento de partidos pela segunda vaga. Enquanto o atual senador se apoia na prerrogativa de indicar o sucessor, o PT trabalha para lançar o deputado José Guimarães, líder do governo na Câmara. Já a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins avalia deixar a legenda para concorrer.

A aglutinação de forças da oposição, no entanto, fortalece o movimento para que esta vaga seja de um partido de centro, ampliando a coalizão de Elmano.

No MDB, o pré-candidato é Eunício Oliveira, ex-presidente do Senado e outrora adversário do PT, em escolha escolha que deve fazer a vice-governadora Jade Romero deixar a sigla para manter a posição na chapa ou concorrer a um cargo de eleição proporcional, como a própria admitiu em entrevista ao podcast Jogo Político, do jornal O Povo.

O ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos) e Chagas Vieira (sem partido), secretário da Casa Civil do governo cearense, também se movimentam pela vaga.

 

Fonte: LEONARDO RODRIGUES