Sonho coletivo
Jurema Werneck, no artigo "É preciso recolocar a utopia" (Folha, 25/12), corretamente critica nossa sociedade de consumo, preocupada mais com interesses individuais ou de grupos do que na defesa da coletividade. O sonho de promover o bem geral da Nação vem de longe, mas até agora só se solidificou em algumas nações. Em 1948, a Organização das Nações Unidas adotou a Declaração Universal dos Direito Humanos, delineando as obrigações do Estado para com seus cidadãos. No Brasil, a Constituição "Cidadã" de 1988 seguiu o mesmo caminho na teoria, mas na prática não teve o efeito esperado da garantia dos direitos básicos, continuando a existir rincões de miséria social.
A mudança só será possível se conseguimos alcançar a consciência cívica de que o bem público deva prevalecer sobre o individual. E a culpa não é apenas do Estado que criminaliza o aborto e não oferece recursos para a prática do sexo seguro, mas de todos os cidadãos que agem egoisticamente, insensíveis à necessidade de promover o bem comum. Colocar filhos no mundo sem condições econômicas e psíquicas de educá-los convenientemente é uma irresponsabilidade imponderável, pois onera a sociedade como um todo, sendo a causa primordial do desemprego e da delinquência. O que para países subdesenvolvidos é utopia ou sonho, para nações civilizadas é pura realidade: é muito difícil encontrar uma família norueguesa com mais de dois filhos!
Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
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