"Um é pouco, dois é bom, três é demais"
O adágio acima, fruto da sabedoria popular, se aplicado ao sistema político, poderia promover uma cidadania de primeiro mundo. Se houvesse apenas um partido seria ruim por gerar imobilismo e autoritarismo; um segundo partido seria ótimo por permitir o contraditório e a alternância no poder; já a existência de um terceiro partido acabaria destruindo a democracia, visto que não é a agremiação mais votada a governar, como acontece atualmente no nosso país. Explico: se o partido A recebe 40% dos votos, o B 30% e o C 15%, será este último (ou vários pequenos associados) a ser o fiel da balança. As agremiações menos votadas barganham seu apoio à Presidência cujo partido tem uma maioria apenas relativa. Para que qualquer projeto de lei possa ser aprovado é preciso fazer várias concessões: distribuir cargos, favores, privilégios; liberar verbas orçamentárias; traficar influências, passando a praticar o famigerado ditado franciscano "é dando que se recebe", posto em conluio com o maquiavélico "o fim justifica os meios".
Daqui a uns dias somos convocados para escolher entre a liderança do esquerdista Haddad ou do direitista Bolsonaro. O primeiro, representante do PT, o partido que governou o Brasil por mais de uma década nadando na onda da corrupção; o outro, filiado a um partido novo, o PSL, promete resolver o grave problema da segurança pública pelo uso da força militar. É difícil escolher entre a mentira e a espada! As propagandas eleitorais dos dois partidos que ficaram para a final, em lugar de apresentarem propostas concretas para sanarmos deficiências endêmicas no tocante déficit orçamentário, educação, saúde, segurança, transporte coletivo, visam mais salientar os defeitos do adversário. Por isso, tanto faz vencer um ou outro, pois o problema não é de pessoas ou de partidos, mas das próprias instituições. Precisamos extirpar a origem do mal pela raiz: a herança de servidão, ignorância, nepotismo, corrupção, impunidade.
Já passou da hora de afugentar esse nefasto sistema político de Presidencialismo de cooptação com mais de trinta partidos disputando favores do governo em troca de apoio. Urge que os representantes do Congresso recentemente eleito efetuem uma profunda reforma política com o fim de implantar um sistema governamental fundado num Parlamentarismo com apenas dois partidos, que poderiam ser um PS (voltado mais para o social) e um PL (partido liberal). Se democracia é respeito à vontade do povo (será que a massa popular quer corrupção, impunidade, insegurança?), justo seria que o partido mais votado tivesse condições reais para governar. Mas isso não acontece quando houver mais de dois partidos, pois o mais votado, por não conseguir maioria absoluta, é obrigado a fazer concessões a partidos nanicos. De outro lado, a falta de liberdade para a criação de novos partidos não fere o direito do cidadão de participar ativamente da vida pública. No âmbito do seu partido, especialmente em ocasião das eleições primárias para a escolha de candidatos a cargos públicos, o filiado poderá discutir, divergir, pleitear, democraticamente. O pretexto de defender "ideologias" é enganar trouxas! São ridículas as bancadas das três B: da bíblia, da bala, do boi!
No sistema bipartidarista a vergonhosa barganha pode ser evitada, pois o partido vencedor já conseguiu maioria absoluta no Parlamento. Cabe ao Presidente da República, escolhido pelo Congresso Nacional por prazo indeterminado, com função apenas representativa e moderadora, não filiado a nenhum partido, nomear um Primeiro Ministro para a formação do governo, podendo ser substituído a qualquer momento, se não tiver sucesso, sem trauma para a Nação. É incrível que mais de duzentos milhões de brasileiros sejam obrigados a viver na dependência de uma única pessoa, o Presidente, um ser humano sujeito a doenças, acidentes, incompetência, egoísmos. Para nos convencermos de que o parlamentarismo bipartidarista é a melhor forma de governo basta olhar a história da humanidade, desde a antiga República romana às modernas democracias mais desenvolvidas. Para isso acontecer no nosso País é necessária uma forte pressão popular sobre deputados e senadores, através da imprensa e das redes sociais. O futuro de nossos filhos e netos depende do triunfo do bom senso sobre a estupidez humana. Há muito tempo venho escrevendo sobre este assunto. No meu livro "Pensar é preciso", publicado pela Editorama (São Paulo, 2009), com posterior versão eletrônica para leitura gratuita na Wikipédia, o ultimo capitulo trata especificamente deste tema: "Construindo uma cidadania: ensaio sobre a cegueira política".
Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio