"UMA BATALHA ATRÁS DA OUTRA" ME FEZ LEMBRAR A PROPAGANDA ENGANOSA DAS "VIÚVAS DA DITADURA"
Ao assistir Uma batalha após a outra, logo me lembrei da propaganda enganosa das viúvas da ditadura na década retrasada. Eu as combati muito no Orkut.
Sem terem como negar os crimes contra a humanidade cometidos pelo seu lado, os ultradireitistas tentavam igualar os raros excessos em que os guerrilheiros incidiam à adoção generalizada dessas práticas por parte do regime militar. Era como equiparar um a mil.
Da mesma forma, esse filmeco de ação mostra mostra os combatentes como figuras caricatas, disparando chavões e palavrões a torto e a direito e explodindo instalações que jamais seriam alvos para nós (incluo-me entre os combatentes da luta armada) por não serem identificadas como nefastas pelo povão.
Para culminar, apresenta uma guerrilheira como erotômana, exigindo que um coronel do exército forçasse uma ereção sob a mira de sua arma).
O que tem isso a ver com os verdadeiros guerrilheiros e as nossas verdadeiras ações armadas? Absolutamente nada. E o pior é que omite o lado mais execrável da repressão, como se não tivessem havido sevícias e matanças desembestadas.
Eu, por exemplo, tive meu tímpano estourado quando o cabo da guarda me levava de volta para a solitária, após uma sessão de torturas. Ou seja, apesar de sua posição inferior na hierarquia militar, ele se deu ao luxo de extravasar suas frustrações num preso político. E, que eu saiba, jamais foi punido por isto.
Nossos poucos pentes de metralhadora não eram utilizados em treinamentos
Houve também um capitão que, numa diligência em área rural, me aconselhou a tentar fugir, pois ninguém estava prestando atenção.
Eu, como parte mais fraca, evitava entrar em confronto com os militares, mas daquela vez não aguentei mais e respondi, mostrando meu peito: "Se é para me matar, atira aqui e não pelas costas".
Para piorar, o diretor Paul Thomas Anderson enxertou comicidade bobinha num assunto muito sério. Centenas de companheiros valorosos morreram na resistência ao totalitarismo e ao terrorismo de estado. Outros tantos sofreram o diabo nos porões da ditadura. Merecemos respeito.
O festival de besteiras que assola a tela continuou com a frouxidão da rede de militantes, sem resquício nenhum de nossas normas de segurança bem mais profissionais (tínhamos como paradigmas os tupamaros uruguaios). Organizados daquela maneira não aguentaríamos sequer um mês nos anos de chumbo.
Guerrilheiros treinando com metralhadora? Esquece: tiros isolados poderiam estar sendo desferidos por caçadores, mas rajadas inevitavelmente atrairiam a repressão. Ademais, os pentes escasseavam para nós e jamais os desperdiçaríamos dessa maneira.
E, se houvesse tanta gente assim combatendo a ditadura, seria o suficiente para fazermos a revolução no país inteiro. Éramos um punhado de idealistas sendo esmagado pelos muitíssimos militares.
A inferioridade de forças era tão acentuada que nossas organizações começaram fazendo ações armadas sozinhas e acabaram tendo de juntar duas ou três para as levarem a cabo.
Quanto à cambada de gringos e ricaços que nos combatia, eles eram bem diferentes da fantasia mostrada no filme, um misto tosco de CCC, TFP, Opus Dei e linha dura das Forças Armadas. Para começar, não incineravam seus membros.
A igualação dos desiguais é uma tônica no filme
Provavelmente, o delegado Sérgio Fleury foi o único assassinado pelo fogo amigo. Sabia demais e estava descontrolado, daí terem feito dele um raro dono de barco que caiu no mar e morreu afogado. Acredite quem quiser...
Nada além de um road movie metido a besta, Uma batalha após a outra fica quilômetros atrás de Sem Destino, sendo inferior até a Mad Max 2, p. ex.
Se o Oscar não fosse um festival da indústria cinematográfica e jamais do cinema, eu consideraria descabida a a premiação de melhor filme e melhor diretor.
Nas principais categorias, o único a merecer a estatueta era o Wagner Moura, como melhor ator. Fez jus a ela por ter conseguido tornar crível um personagem inverossímil.
Já o Sean Penn foi agraciado com a estatueta de ator coadjuvante apesar de haver tido o pior desempenho de sua carreira. Mas, já que o Oscar não tem real relevância afora a comercial, tanto faz, como tanto fez. (por Celso Lungaretti)
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