Vacinas: Diretoria Colegiada da Anvisa prepara um “espetáculo de exaltação do bolsonarismo”, diz Padilha

17 de janeiro de 2021 39

A despeito do atraso do Brasil com relação ao início da vacinação contra a Covid-19, a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve preparar um “espetáculo de exaltação do bolsonarismo” no domingo (17), quando os 5 diretores se reunirão para votar se autorizam ou não o uso emergencial das vacinas do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A opinião é de Alexandre Padilha (PT-SP), deputado federal e ex-ministro da Saúde.

“Tenho certeza que apesar do trabalho técnico de servidores da Anvisa, inclusive que ocupam cargos importante de coordenação, apesar desse trabalho ser sério, Bolsonaro e os diretores que foram indicados preparam um espetáculo para o domingo. Um espetáculo de exaltação do Bolsonaro e do bolsonarismo. eTmos que estar preparados para várias mensagens que podem ser dadas para esse espetáculo”, disse Padilha à Fórum.

Todos os cinco diretores que tomarão a decisão que deve mudar os rumos da pandemia no Brasil foram indicados pelo presidente Jair Bolsonaro, que tem desestimulado a vacinação e, ao longo de toda a crise sanitária, rejeitou o uso de máscaras, promoveu e incentivou aglomerações, minimizou a doença e não encampou nenhuma política de Estado de caráter emergencial que fizesse efeito concreto para atenuar os efeitos da pandemia. Até mesmo o auxílio emergencial foi obra de uma articulação do Congresso Nacional e que, agora, por imposição do governo, chegou ao fim.

A questão da vacinação, por sua vez, tem sido o terreno de uma disputa política para o bolsonarismo. A Coronavac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, se tornou a “vacina chinesa” para os apoiadores de Bolsonaro, que endossam os ataques que o presidente faz a João Doria (PSDB) e tentam descredibilizar o imunizante que o governador de São Paulo vem tentando viabilizar.

 

Além de terem sido indicados por Bolsonaro, alguns dos diretores da Anvisa que votarão a autorização das vacinas compartilham de ideias semelhantes ao do chefe do Executivo. O contra-almirante Antônio Barra Torres, diretor presidente da agência, por exemplo, é bem próximo do ex-capitão e já chegou a participar de manifestação com Bolsonaro sem usar máscara de proteção. Já outra diretora colegiada, Cristiane Rose Jourdan Gomes, é entusiasta, assim como o presidente, da cloroquina, substância que não tem a eficácia comprovada contra a Covid-19. Ela tem por hábito compartilhar nas redes sociais artigos da médica bolsonarista Nise Yamaguchi.

Esses dois diretores e outros três indicados no governo Bolsonaro são quem decidirão se o Brasil inicia ou não a vacinação na próxima semana e, diferentemente do que aconteceu em outras decisões da Anvisa, esta será transmitida ao vivo e, atipicamente, em um domingo.

Estes são alguns dos fatores que levam Alexandre Padilha a crer que a votação será um “espetáculo”.

“A maior prova disso [da tentativa de espetacularização] é que nenhuma das reuniões colegiadas neste governo foi transmitida ao vivo. Essa foi uma prática, inclusive, instituída em nossa gestão do Ministério da Saúde, onde fazíamos sempre a transmissão das reuniões colegiadas de forma ao vivo, o que é importante porque há várias decisões que são tomadas e, ao dar transparência, você permite um acompanhamento maior da sociedade do que está sendo decidido. Isso acabou na Anvisa em 2018, quando tinha uma direção colegiada que decidia questão de agrotóxicos e a sociedade civil decidiu participar, se envolver. E ali se encerraram as transmissões ao vivo. Teve até uma resolução determinando que as transmissões seriam veiculadas 5 dias depois de realizadas”, revela o parlamentar.

O ex-ministro pondera, contudo, que apesar da tentativa do governo de se promover com a autorização das vacinas que será votada no domingo, o despreparo da atual gestão federal para lidar com a pandemia continuará evidenciado.

“Não tenho dúvida de que existe uma tentativa de criar um espetáculo. Escolheram o dia de domingo…. Certamente é a primeira reunião colegiada da diretoria da Anvisa sob a gestão de Bolsonaro que acontece no domingo, e a transmissão vai tentar fazer um espetáculo. A questão é que o espetáculo não esconde as milhares de mortes no Brasil por conta do atraso do plano de vacinação. O Brasil pela primeira vez ficou na rabeira das campanhas de vacinação pelo mundo. Milhares de pessoas já podiam ter tido suas vidas salvas se a vacinação tivesse começado em dezembro, o colapso como em Manaus poderia ser evitado. Não à toa o Bolsonaro vetou uma alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias que eu aprovei, fruto de minha emenda no ano passado, que estabelecia como meta a vacinação de toda a população no ano de 2021”, considera o petista.

Governos estaduais Brasil afora já têm elaborado planos da vacinação contanto com que a Anvisa autorize o uso emergencial dos imunizantes. A expectativa é que, uma vez autorizada a distribuição das vacinas, a imunização, começando pelos grupos prioritários, se inicie na próxima semana, entre os dias 20 de 25 de janeiro. A reunião da agência sobre o tema no próximo domingo deve acontecer por volta das 10h da manhã.