A desistência de Ratinho Júnior e o histórico instável da ‘terceira via’ no Brasil

25 de março de 2026 23

desistência de Ratinho Júnior (PSD) de concorrer à Presidência da República em 2026 entra para o rol de apostas dificultosas de uma terceira via no Brasil. A tentativa de se firmar como alternativa à polarização política tem sido recorrente nas últimas décadas, mas esbarra em um histórico de baixo desempenho eleitoral que até hoje pena a despertar apelo ao votante brasileiro.

A definição de terceira via, no entanto, vai além de simplesmente ocupar a terceira colocação nas urnas ou adotar o discurso de equidistância entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) — apenas representantes modernos dos polos políticos clássicos. Tampouco inclui apenas candidaturas de perfil antissistema ou aquelas que participam do pleito com objetivo principal de gerar visibilidade.

Tradicionalmente, o conceito de terceira via está associado a nomes de centro, que defendem uma conciliação entre agendas de esquerda e direita, evitando tanto propostas de redistribuição radical de patrimônio quanto de eliminação de políticas sociais.

Na prática, esse campo político já ocupou o Palácio do Planalto durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso, eleito pelo PSDB. O período, no entanto, coincidiu com a ascensão de Lula e do PT, consolidando uma disputa que marcaria as eleições seguintes.

Desde a vitória de Lula em 2002, o cenário presidencial passou a ser dominado pelo embate entre o PT e o antipetismo, reduzindo o espaço para candidaturas alternativas. Naquele ano, Ciro Gomes concorreu pelo PPS com propostas alinhadas a sua trajetória como governador do Ceará e ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco, incluindo experiências no próprio PSDB. Terminou em quarto lugar, com cerca de 12% dos votos, e declarou apoio a Lula no segundo turno.

Quando o petista foi eleito presidente, Ciro ainda ganhou espaço institucional e assumiu o Ministério da Integração Nacional durante o primeiro mandato. A estratégia de agregar a terceira via dentro de sua própria gestão seria repetida por Lula no futuro, conhecido por tentar “conciliar” divisões políticas.

Tentativas frustradas e o avanço da polarização

Apoiadores do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazem campanha em Brasília

Em 2009, com PT e PSDB ainda como forças dominantes, Marina Silva deixou o partido de Lula após 30 anos de filiação para se apresentar como alternativa de renovação. Carregando uma agenda que combinava pautas liberais e ambientalistas, disputou a Presidência duas vezes, ficando em terceiro lugar tanto pelo Partido Verde quanto pelo PSB. Em 2014, após campanha contrária agressiva do PT, decidiu apoiar o candidato perdedor Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno.

A eleição de 2018 marcou uma inflexão no cenário: a vitória de Jair Bolsonaro retirou do PSDB o protagonismo como principal força antipetista e deslocou candidaturas de centro e centro-direita para uma posição ainda mais periférica. Naquele pleito, nomes como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e a própria Marina Silva foram associados à terceira via, mas não conseguiram converter suas candidaturas em desempenho expressivo nas urnas.

Em 2022, o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário institucional e a tentativa de reeleição de Bolsonaro fizeram com que o espaço para uma alternativa de centro se mostrasse ainda mais restrito. A principal representante desse campo foi Simone Tebet, candidata pelo MDB, com apoio do PSDB. Ela terminou em terceiro lugar, com cerca de cinco milhões de votos, apoiou Lula no segundo turno e posteriormente assumiu cargo no governo — semelhante ao que acontecera com Ciro duas décadas antes.

Nem esquerda nem direita

Com o recrudescimento da polarização trazida pelas eleições de 2022, que opuseram dois representantes ruidosos de seus respectivos campos, a tentativa de capitalizar o discurso de “terceira via” ou “candidatura moderada” surfava na alta rejeição de Lula e Bolsonaro.

Nesse época, o eleitor presenciou jingles como o do tucano Rodrigo Garcia (PSDB) que, rechaçando os então candidatos ao governo de SP Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), dizia: “Nem esquerda, nem direita, para frente”.

Além dele, o partido União Brasil propagou o lema “Nem esquerda, nem direita. É hora de União, Brasil” durante a campanha de 2022. O deputado Luciano Bivar chegou a usar o aforismo como lema de candidatura e criou propagandas eleitorais pedindo que o Brasil “deixasse o meio de campo jogar”.

As apostas do PSD

Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, presidenciáveis do PSD

Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, do PSD, foram citados por Hartung como lideranças com potencial para presidir o país

Esse histórico de instabilidade consolidou uma sequência de tentativas frustradas que agora o PSD busca interromper. Com a saída de Ratinho Júnior da corrida presidencial, a sigla volta suas atenções para outros nomes com potencial de representar a terceira via em 2026.

Entre os cotados estão Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, que despontam como alternativas para enfrentar uma possível disputa polarizada envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro. Bolsonaristas de ocasião, os governadores do PSD já integraram a fila de apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), mas hoje se apresentam em nome da terceira via.

Fonte: Por Luma Venâncio e Leonardo Rodrigues