Adaílton e o “furiocentrismo”: a fórmula que levou um político promissor e em ascensão à derrota acachapante no 1º turno As informações são do site Rondônia Dinâmica. As informações são do site Rondônia Dinâmica. **Texto originalmente publicado em**: htt

5 de outubro de 2026 16

PORTO VELHO, RO - Adaílton Fúria não chegou às eleições de 2026 como aventureiro ou candidato destinado a cumprir tabela. Chegou como político em ascensão, prefeito extraordinariamente bem votado e nome capaz de ameaçar Marcos Rogério. Em 2024, havia sido reeleito em Cacoal com 40.270 votos, equivalentes a 83,16% dos válidos. Em dezembro de 2025, pesquisa Real Time Big Data já o colocava na primeira prateleira da sucessão estadual, chegando a empatar com Rogério em 23%. Havia capital político, carisma, aprovação administrativa e uma candidatura verdadeiramente competitiva.
Foi justamente dessa força que nasceu o furiocentrismo. A confiança que ajudara Fúria a construir seu fenômeno eleitoral em Cacoal começou a se transformar em autossuficiência. O prefeito acostumado a ocupar o centro gravitacional de seu grupo pareceu acreditar que poderia reproduzir em Rondônia a mesma lógica de liderança. Só que uma eleição estadual exigia mais: dividir protagonismo, administrar interesses, preservar aliados, aceitar mediações e compreender que uma candidatura majoritária não pode depender exclusivamente da percepção e da vontade de seu candidato.
No começo de 2026, Fúria tinha as pontes necessárias para essa travessia. Em 30 de janeiro, o governador Coronel Marcos Rocha filiou-se ao PSD e assumiu o comando estadual da legenda, que tinha Fúria como pré-candidato ao governo. Rocha e Fúria apareceram juntos em articulações partidárias e a fotografia política era clara: o ex-prefeito era o nome do agrupamento governista para a sucessão. O problema surgiu quando Fúria quis o apoio de Marcos Rocha sem carregar Marcos Rocha, usufruindo da musculatura da aliança enquanto fazia questão de ressaltar que não era continuidade do governo.
A diferenciação transformou-se gradativamente em distanciamento e o distanciamento ganhou contornos de desprezo político. Fúria passou a tratar como inconveniente justamente o aliado que ajudara a pavimentar sua candidatura estadual. Marcos Rocha servia para a construção partidária, mas precisava desaparecer quando o assunto era o legado do governo. Era quase um fingimento de demência eleitoral: Fúria queria o bônus da proximidade e tentava escapar sozinho de qualquer ônus da associação. Esquecia que Rocha não era mero cabo eleitoral, mas governador, presidente estadual do PSD e peça central daquela engenharia política.
A primeira grande crise, porém, explodiu em Cacoal. Em 2 de abril, Fúria renunciou à Prefeitura para disputar o governo, deixando no cargo Tony Pablo, seu vice e aliado de longa data. O sucessor deveria preservar a principal vitrine administrativa do candidato. Em vez disso, promoveu mudanças e, ainda em abril, rejeitou publicamente ser “pautado, guiado ou manobrado” por Fúria. Tony também apresentou sua leitura sobre dificuldades financeiras encontradas no município, enquanto Fúria contestou essa interpretação e defendeu a administração que havia deixado. Politicamente, o estrago estava feito.
Enquanto Fúria percorria Rondônia oferecendo Cacoal como certificado de competência, seu próprio sucessor discutia publicamente a herança recebida e reivindicava independência. Mais tarde, Tony e Fúria se realinharam e o prefeito voltou ao palanque do antigo aliado, mas a reconciliação não apagou a crise. Curiosamente, também não destruiu a força de Fúria em Cacoal, onde ele continuou amplamente competitivo. O problema não era perder sua fortaleza eleitoral, mas descobrir como transformar uma liderança municipal gigantesca em liderança estadual.
Mesmo cercado por ruídos, Fúria continuava vivo. Em julho, o Real Time Big Data mostrava Marcos Rogério com 36% e Fúria com 28%. Em uma simulação de segundo turno, o placar era de 44% a 40%. Em 1º de agosto, o PSD oficializou sua candidatura, com Everton Leoni como vice. No dia 25, a Quaest produziu a fotografia mais importante da campanha: Rogério tinha 24% e Fúria, 21%, em empate técnico. Na espontânea, Fúria aparecia numericamente à frente, com 12% contra 11%, enquanto 22% ainda estavam indecisos.
Era o momento de estabilizar a candidatura, profissionalizar decisões, pacificar aliados e reduzir ruídos. Foi justamente quando começou a timeline do caos. No início de setembro, João Kaleche deixou o comando do marketing. Dias depois, o ex-marqueteiro descreveu Fúria como progressivamente centralizador e relatou uma dinâmica em que o candidato passou a interferir diretamente na estratégia de comunicação e a abandonar orientações profissionais. A crise expôs o coração do furiocentrismo: o candidato que precisava ampliar sua estrutura concentrava decisões justamente quando deveria confiar cada vez mais nela.
O episódio envolvendo uma informação equivocada utilizada contra Marcos Rogério em debate reforçou a sensação de desorganização. Mais importante do que o erro isolado foi o ambiente revelado depois, quando responsabilidades passaram a ser discutidas publicamente. Fúria queria controlar cada vez mais a campanha, mas a campanha parecia controlar cada vez menos seus próprios ruídos. Ao mesmo tempo, a relação com Marcos Rocha caminhava para uma ruptura que completaria a implosão do projeto montado no início do ano.
Em 18 de setembro, Fúria declarou que havia perdido o apoio de Marcos Rocha e afirmou que o governador estava apoiando “outro candidato aqui da capital”, numa referência a Hildon Chaves. Nos bastidores, consolidou-se a percepção de que o esforço político do entorno do Palácio Rio Madeira havia enveredado para Hildon. O candidato que começara 2026 sob o guarda-chuva do governador chegava à reta final olhando para o mesmo Palácio como território adversário. A aliança que deveria impulsioná-lo havia se transformado em mais uma fonte de conflito.
O padrão era difícil de ignorar. Tony Pablo representava a continuidade de seu legado em Cacoal. João Kaleche representava uma das mediações profissionais da campanha. Marcos Rocha era a principal ponte para uma estrutura política estadual. Os três vínculos entraram em crise. Tony rejeitou tutela, Kaleche deixou a campanha criticando a centralização e Rocha passou de principal fiador a governador que, segundo o próprio Fúria, apoiava outro candidato. Eram conflitos diferentes, mas todos possuíam o mesmo centro: Adaílton Fúria.
Foi nesse contexto que a frase de Hildon Chaves em RD Entrevista ganhou dimensão quase profética: “faltam cabeços brancos” a Fúria. Faltou experiência política para compreender que nem toda divergência exige confronto, que aliados precisam ser cultivados mesmo quando se tornam inconvenientes e que liderança não significa ocupar todo o espaço. Fúria parecia acreditar ser maior do que realmente era, não porque fosse pequeno, mas porque confundiu força com autossuficiência. Tinha tamanho para disputar Rondônia, mas não tinha tamanho para prescindir das pontes necessárias para conquistá-la.
As pesquisas contam essa história com precisão. Em 25 de agosto, Fúria tinha 21% e Marcos Rogério, 24%. Em 24 de setembro, Fúria continuava com 21%, enquanto Rogério havia saltado para 37%. Fúria não despencou; estacionou. E estacionar numa eleição em movimento é outra forma de despencar. Enquanto administrava conflitos com Tony, o marketing, Marcos Rocha e adversários, Rogério crescia, desarmava-se retoricamente, evitava celeumas, aprendia a surfar no favoritismo e deixava de fabricar problemas para si mesmo.
Nas urnas, a diferença de três pontos registrada em agosto virou um abismo. Marcos Rogério venceu no primeiro turno com 56,86% dos votos válidos, equivalentes a 537.370 votos. Fúria terminou em segundo com 20,06%, ou 189.547 votos, enquanto Hildon ficou com 14,22%. O prêmio de consolação do grupo veio com a eleição de Joliane Fúria, esposa de Adaílton, para deputada federal. O sobrenome permaneceu politicamente relevante, mas o projeto que levara Fúria a abandonar uma Prefeitura conquistada com votação histórica terminou muito longe do Palácio Rio Madeira.
A derrota não encerra necessariamente sua carreira. Fúria preservou cerca de um quinto do eleitorado estadual, manteve força em Cacoal e continua carregando carisma e capital político. O que 2026 destruiu foi a ilusão de autossuficiência. Se aprender a diferença entre autoridade e centralização, autonomia e isolamento, confiança e arrogância política, poderá voltar fortalecido. Se não aprender, o furiocentrismo continuará produzindo o mesmo paradoxo: um político com qualidades suficientes para crescer, mas centralizador o bastante para sabotar o próprio crescimento.
_____________________
PESQUISAS CITADAS:
Real Time Big Data — dezembro de 2025: levantamento realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2025, com 1.200 entrevistas presenciais em Rondônia e margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos. No cenário citado na reportagem, Marcos Rogério e Adaílton Fúria apareciam empatados com 23%. Como a pesquisa foi divulgada em 2025, ano anterior ao pleito, não havia obrigatoriedade de registro no sistema PesqEle da Justiça Eleitoral, exigência que passou a valer em 1º de janeiro de 2026. As publicações consultadas sobre essa rodada não informam o nível de confiança.
Real Time Big Data — julho de 2026: pesquisa realizada entre 14 e 15 de julho, com 1.600 eleitores de Rondônia. Margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. Registro na Justiça Eleitoral: RO-04369/2026. Na estimulada para o primeiro turno, Marcos Rogério tinha 36% e Adaílton Fúria, 28%. Na simulação de segundo turno entre os dois, Rogério registrava 44% e Fúria, 40%.
Quaest — agosto de 2026: levantamento realizado entre 21 e 24 de agosto, com 804 eleitores de 16 anos ou mais em Rondônia. Margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi encomendada pela Rede Amazônica e registrada na Justiça Eleitoral sob os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026. Na estimulada para o Governo, Marcos Rogério aparecia com 24% e Adaílton Fúria com 21%; na espontânea, Fúria tinha 12% e Rogério, 11%.
Quaest — setembro de 2026: pesquisa realizada entre 20 e 23 de setembro, com 804 eleitores de 16 anos ou mais em Rondônia. Margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O levantamento foi encomendado pela Rede Amazônica e registrado na Justiça Eleitoral sob o número RO-08556/2026. Na estimulada para o Governo, Marcos Rogério alcançou 37% e Adaílton Fúria permaneceu com 21%.

Fonte: Rondônia Dinâmica