Agência investigada recrutou e pagou cabos eleitorais para Nunes

9 de março de 2026 21

Pivô de uma crise que derrubou o presidente da SPTuris e o secretário-adjunto de Turismo na Prefeitura de São Paulo, a agência MM Quarter mobilizou sua equipe permanente e recrutou guias turísticos terceirizados pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para trabalharem como cabos eleitorais na campanha à reeleição do prefeito da capital, em 2024.

A coluna colheu depoimentos e comprovantes de depósito que mostram cabos eleitorais de Nunes sendo pagos pela Quarter, sem nota fiscal. A agência não aparece na lista de fornecedores apresentada pela campanha do prefeito ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na prestação de contas, a contratação de pessoal foi concentrada em uma cooperativa que recebeu R$ 7,3 milhões para “prestação de serviço de cooperados”.

À coluna o diretório municipal do MDB afirmou que a campanha de Nunes “cumpriu integralmente as exigências da legislação vigente, com prestação de contas apresentada nos termos da lei e devidamente aprovada pela Justiça Eleitoral, sem qualquer ressalva”. O partido do prefeito disse, ainda, que “não houve relação contratual entre a campanha e a empresa mencionada na reportagem”. A Quarter negou ter atuado na campanha (leia a íntegra dos posicionamentos ao final da reportagem).

Durante o período eleitoral, a Quarter firmou um contrato de R$ 67 milhões com a SPTuris, empresa municipal de eventos e turismo, além de ter recebido R$ 1,6 milhão da prefeitura para fornecer guias turísticos bilingues e recepcionistas para o Aquático SP, um serviço de transporte público hidroviário na Represa Billings, utilizado por moradores dos bairros Pedreira e Grajaú, na zona sul paulistana.

A Quarter, como já mostrou a coluna, tem R$ 232 milhões em contratos vigentes com a SPTuris e com a Secretaria Municipal de Turismo. Após a reportagem revelar que a empresa estava no nome de uma laranja, o prefeito Ricardo Nunes enviou o caso à Controladoria Geral do Município (CGM)que encontrou duas procurações da dona da Quarter dando “amplos poderes” para que Rodolfo Marinho, então secretário de Turismo, e o empresário Victor Correia Moraes, gerissem tudo em seu nome.

Após a descoberta, Marinho foi demitido por Nunes, junto com Gustavo Pires, presidente da SPTuris. O prefeito prometeu investigar o caso e punir os responsáveis.

Contratos e campanha

Na época da campanha eleitoral de 2024, a Quarter tinha nove contratos de terceirização de mão de obra com a SPTuris, para fornecer guias de turismo, carregadores e outros profissionais. Um décimo acordo, no valor de R$ 67 milhões, foi assinado durante o segundo turno, em outubro daquele ano.

Os depoimentos e registros obtidos pela coluna (veja na galeria abaixo) mostram que a agência recrutava terceirizados a partir de grupos de Whatsapp após ser acionada pela SPTuris. No caso dos guias de turismo, isso era feito pelo grupo “Guias de Turismo Quarter”, que, até o mês passado, tinha 547 membros.

Só administradores da Quarter podem mandar mensagens no grupo e foi por ali que a agência recrutou, por exemplo, profissionais para o “maior Carnaval de Rua que São Paulo já teve”, em janeiro deste ano.

Em 28 de setembro de 2024, Giselle Souza, que é coordenadora da Quarter, enviou a seguinte mensagem no grupo, avisando de vagas para campanha eleitoral: “Boa tarde, pessoal. Vaga para tendas para fazer divulgação de campanha política. Cachê R$ 250. Não precisa emitir nota. Contratante: cooperativa. Data: 29/9 a 5/10. Horário: 9:00 às 18:00″.

Em seguida, ela enviou uma enquete questionando quem teria disponibilidade e avisou: “Preciso que todos respondam”. Avisou também que a “vaga é só para os guias que estão no grupo“. Votaram “sim” na enquete 34 pessoas.

A coluna acessou o link enviado, que seguia válido até às 16h do dia 27/2 e saiu do ar logo depois do questionameto feito pela coluna à assessoria de imprensa da Quarter.

A planilha enviada pela Quarter no grupo dos guias estava nomeada como “CAMPANHA RN – 2024” e informava: “Este formulário foi criado em Agencia Quarter“. RN são as iniciais de Ricardo Nunes.

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Gustavo Pires, Ricardo Nunes e Tomás Covas no evento eleitoral organizado com apoio da Quarter para os guias apoiarem a campanha de Nunes

Marcelo Correia Moraes fala para cabos eleitorais de Nunes no QG da campanha de 2024

Rodolfo Marinho, secretário de Turismo, fala para equipe da campanha de Nunes no Joelma

Formulário enviado a guias que trabalham para a Quarter para cadastrar quem tivesse interesse em trabalhar na campanha de RN (Ricardo Nunes).

Imagem atual do Whatsapp de Giselle Souza, a pessoa que convidou os guias para trabalharem na campanha de Nunes.

Atuação de Rodolfo Marinho

Os interessados foram convidados a comparecerem ao QG da campanha de Nunes, no Edifício Joelma, no centro de São Paulo, no dia 29 de setembro, às 8h30. Reunidos em um auditório, assistiram a apresentações sobre a plataforma eleitoral de Nunes.

Imagens obtidas pela coluna mostram que, entre as pessoas que palestraram sobre como convencer eleitores a votarem em Nunes, estavam Rodolfo Marinho, então adjunto do Turismo e agora investigado pela CGM como sendo sócio oculto da Quarter, e Marcelo Correia Moraes, que a coluna vem mostrando ser o operador da Quarter. Ele é o “contato institucional” entre Quarter e SPTuris, segundo a própria empresa municipal de Turismo.

Os guias turísticos, que são treinados para dar informações a populares nas ruas, foram divididos em grupos e enviados, de ônibus, para os bairros, onde atuaram como cabos eleitorais. Uma equipe ficava no centro sob a coordenação de Gilberto Félix, o Giba. Ele era o principal coordenador da equipe de guias da Quarter e até então protagonista de vídeos publicados nas redes sociais da agência, que atende exclusivamente a Prefeitura de São Paulo.

Após a vitória de Nunes sobre Guilherme Boulos (PSol), Giba postou um vídeo em que o secretário de Cultura, Totó Parente (MDB), elogia o trabalho dele na campanha. Na legenda, o coordenador da Quarter agradece à confiança depositada nele por Marinho, Marcelo Ribeiro (coordenador de Turismo), SPTuris e Quarter.

Evento com chefe da SPTuris

A participação da Quarter na campanha havia começado antes, em meados de setembro, quando a coordenadora Claudete Santos convidou os guias para uma “acolhida” no Clube Esperia, na zona norte da capital, a “quem sempre batalhou pelo turismo em São Paulo”.

Guias ouvidos pela coluna relataram terem entendido ser uma confraternização entre os colaboradores que trabalham para a Quarter. Acharam estranho, porém, que Claudete tivesse pedido, no grupo, que todos mandassem fotos comprovando a presença, protocolo para justificar pagamentos em dias trabalhados. Ao todo, 114 guias confirmaram presença.

Ao chegarem lá, descobriram tratar-se de um evento de campanha de Ricardo Nunes, uma recepção organizada por Gustavo Pires e Tomás Covas (PSDB), filho do ex-prefeito Bruno Covas (morto em 2021), ao candidato à reeleição. Na plateia, trabalhadores de empresas que prestam serviços terceirizados pela SPTuris, caso da Quarter.

“A nossa fala é para você, carregador, assistente de palco, técnico de som, guia, segurança (…). Por que eu mencionei todos vocês que estão na operação? Hoje, a gente preside a SPTuris pela liderança do nosso prefeito Ricardo Nunes, que nos orienta e nos acompanha de perto”, diz Gustavo Pires em vídeo publicado nas redes sociais dele.

“Como sempre, na hora que o Gustavo (Pires) da SPTuris falou dos guias, nosso lado explodiu. A festa foi muito bacana. Super contagiante unir as duas equipes em um só lado por um só objetivo, e representamos a Quarter“, escreveu, depois, Claudete da Quarter — a coluna a procurou por telefone e mensagem, sem resposta. O espaço segue aberto.

O recrutamento para trabalhar na campanha, porém, foi comandado por Giselle, que no dia 28 de setembro enviou a lista daqueles que haviam se comprometido na última semana inteira antes do primeiro turno, de 29 de setembro a 5 de outubro. A coluna comparou os nomes com a prestação de contas de Nunes e não encontrou nenhum deles. A campanha, importante citar, terceirizou grande parte da mão de obra para uma cooperativa, que recebeu R$ 7,3 milhões sem detalhar quem foram os cooperados.

Quarter pagava pelo serviço

Com as equipes já na rua, as conversas passaram a acontecer a partir de outros de grupos específicos, como o “equipe centro”, o “guias campanha” e o “documentação Ricardo Nunes”.

A coluna enviou mensagem a integrantes aleatórios de alguns desses grupos, perguntando se eles haviam de fato trabalhado na campanha de Ricardo Nunes, quem os contratou e como haviam recebido. Todos que responderam disseram terem sido recrutados pela Quarter.

Uma das pessoas enviou áudio dizendo: “Não emitimos nota. Quem nos contratou foi a Quarter, quem nos procurou foi a Quarter. Nesse trabalho em si não emitimos nota. Foi feito um Pix e acabou. Não foi feito através do CNPJ da Quarter”.

Outra enviou para a reportagem a conversa de Whatsapp em que uma coordenadora da Quarter pede que a nota fiscal seja emitida para o CNPJ da Oleiro com a descrição “serviços prestados referente ao mês de outubro”. A Oleiro é quarteirizada para gerenciar os City Tours da SPTuris. A empresa pertence a Claudete Santos, a já citada coordenadora da Quarter.

Foi a própria Claudete, pelo próprio CPF, quem fez o Pix para uma terceira guia ouvida pela coluna pelo trabalho dela na campanha de Nunes. Uma quarta pessoa afirmou que recebeu por Pix, pela Quarter, sem emitir nota fiscal. Ela enviou o comprovante.

Outro guia mostrou o Pix recebido em nome da Guetiss Eventos, empresa que recentemente fez os receptivos do Carnaval da Cidade e do Canta Nordeste, eventos apoiados pela prefeitura de São Paulo. Ele diz ter sido contratado pela Quarter. Outras cinco pessoas disseram ter trabalhado para a Quarter na campanha, mas não informaram como receberam o pagamento.

Pagamentos durante a campanha

A Quarter seguiu prestando serviços à SPTuris e a São Paulo Turismo durante a campanha. Em uma das contratações, forneceu 120 guias de turismo, cada um deles trabalhando por dois dias, durante o “Farraial”, um festival sertanejo privado que aconteceu durante um único dia – 17 de setembro – no Sambódromo.

A agência também recebeu cerca de R$ 800 mil pela “promoção da cidade” durante o jogo da NLF, liga de futebol americano, em São Paulo, em 7 de setembro, e mais de R$ 815 mil por serviço equivalente na Bienal do Livro, entre 5 e 15 de setembro.

Já o Aquático SP, transporte hidroviário na Billings, rendeu R$ 837 mil à Quarter durante 30 dias, entre 15 de setembro e 14 de outubro. A empresa foi paga para fornecer, diariamente, 30 guias de turismo e 30 recepcionistas para trabalhar no local. O Aquático é equivalente a um ônibus de transporte público e tem dois barcos que somam capacidade para 90 pessoas. A linha não é turística – o usuário paga os serviço com Bilhete Único.

O que dizem os envolvidos

A Quarter negou, na primeira vez que foi questionada, ter atuado na campanha eleitoral de Ricardo Nunes. Procurada de novo com questionamentos específicos de fatos citados nesta reportagem, enviou a seguinte nota: “A MM Quarter é uma empresa privada que atua na prestação de serviços operacionais e produção de eventos, tanto para o setor público quanto para a iniciativa privada. A atuação da empresa é pautada pelo absoluto respeito ao ordenamento jurídico. A empresa permanece à disposição das autoridades para qualquer eventual esclarecimento.”

Procurada pela coluna, a assessoria do prefeito Ricardo Nunes informou que a resposta seria enviada pelo diretório municipal do MDB, que encaminhou a seguinte nota:

“A campanha municipal de 2024 cumpriu integralmente as exigências da legislação vigente, com prestação de contas apresentada nos termos da lei e devidamente aprovada pela Justiça Eleitoral, sem qualquer ressalva. A aprovação das contas atesta, de forma objetiva, a regularidade da atuação partidária.

Todas as contratações de pessoal realizadas no âmbito da campanha foram conduzidas por cooperativa responsável pelo recrutamento e pelo pagamento das equipes mobilizadas. Não houve relação contratual entre a campanha e a empresa mencionada na reportagem.

O MDB São Paulo esclarece que eventuais interpretações que busquem estabelecer vínculo comercial inexistente não encontram respaldo nos registros formais da campanha, que observou rigorosamente as regras eleitorais e manteve controles regulares de contratação e prestação de contas.

O Diretório Municipal do MDB reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito às normas que regem o processo eleitoral brasileiro. A legenda permanece à disposição para prestar esclarecimentos pelos canais institucionais adequados.”

Fonte: Demétrio Vecchioli