Alexandre Frade: Incerteza radical e construção de portfólio. Como prever menos pode significar investir melhor

17 de abril de 2026 21

A discussão sobre previsões econômicas ganhou novo fôlego com o artigo recente de Morten Nyboe Tabor, que questiona se ainda é possível antecipar o futuro econômico em um mundo marcado por transformações profundas e imprevisíveis. O ponto central não é apenas que a incerteza aumentou, mas que entramos em um ambiente de incerteza radical: situações em que não sabemos quais cenários são possíveis, tampouco conseguimos atribuir probabilidades confiáveis a eles. 

Grande parte da análise macroeconômica tradicional parte da premissa de que o futuro é uma variação estatística do passado. Modelos são calibrados com dados históricos, assumindo estabilidade nas relações entre crescimento, inflação, juros e preços de ativos. O desafio é que mudanças estruturais: geopolíticas, tecnológicas, demográficas ou institucionais, quebram essas relações. Quando isso ocorre, erros de previsão deixam de ser exceções e passam a ser sinais claros de que o modelo não representa mais a realidade. 

Essa reflexão tem implicações diretas para a forma como os portfólios são construídos. 

Durante muito tempo, a alocação de ativos foi organizada em torno de um “cenário central”: um conjunto de projeções consideradas mais prováveis, a partir do qual se define o portfólio ótimo. Em um ambiente de incerteza radical, essa abordagem se torna frágil. O risco maior não é errar o número exato, mas estruturar o portfólio de forma excessivamente dependente de uma narrativa específica sobre o futuro. 

É nesse ponto que o uso de ETFs ganha relevância estratégica. 

Mais do que instrumentos eficientes de acesso a mercados, ETFs funcionam como blocos modulares de construção de portfólio. Eles permitem combinar, de forma simples e transparente, diferentes classes de ativos, regiões, estilos e fatores de risco, reduzindo a dependência de previsões pontuais e aumentando a robustez da alocação. 

Em vez de buscar o “melhor cenário”, a lógica passa a ser: 

  • diversificar entre múltiplas fontes de risco; 
  • combinar ativos que reagem de maneira distinta a inflação, crescimento e juros reais; 
  • manter flexibilidade para ajustes conforme novos sinais surgem. 

ETFs reduzem o custo de errar e ampliam a capacidade de adaptação. É possível reforçar ou reduzir exposições de forma rápida, sem a necessidade de grandes reestruturações, algo essencial quando mudanças estruturais ocorrem de forma inesperada. 

Em um mundo de incerteza radical, investir bem não significa prever corretamente o próximo movimento da economia. Significa construir portfólios capazes de atravessar diferentes regimes, preservando a capacidade de ajuste e evitando erros irreversíveis. Cada vez mais, o foco do investidor se desloca da previsão para a engenharia de portfólio, e os ETFs ocupam um papel central nesse processo. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

Fonte: Alexandre Frade, da Itaú Asset