Alexandre Frade: Incerteza radical e construção de portfólio. Como prever menos pode significar investir melhor
A discussão sobre previsões econômicas ganhou novo fôlego com o artigo recente de Morten Nyboe Tabor, que questiona se ainda é possível antecipar o futuro econômico em um mundo marcado por transformações profundas e imprevisíveis. O ponto central não é apenas que a incerteza aumentou, mas que entramos em um ambiente de incerteza radical: situações em que não sabemos quais cenários são possíveis, tampouco conseguimos atribuir probabilidades confiáveis a eles.
Grande parte da análise macroeconômica tradicional parte da premissa de que o futuro é uma variação estatística do passado. Modelos são calibrados com dados históricos, assumindo estabilidade nas relações entre crescimento, inflação, juros e preços de ativos. O desafio é que mudanças estruturais: geopolíticas, tecnológicas, demográficas ou institucionais, quebram essas relações. Quando isso ocorre, erros de previsão deixam de ser exceções e passam a ser sinais claros de que o modelo não representa mais a realidade.
Essa reflexão tem implicações diretas para a forma como os portfólios são construídos.
Durante muito tempo, a alocação de ativos foi organizada em torno de um “cenário central”: um conjunto de projeções consideradas mais prováveis, a partir do qual se define o portfólio ótimo. Em um ambiente de incerteza radical, essa abordagem se torna frágil. O risco maior não é errar o número exato, mas estruturar o portfólio de forma excessivamente dependente de uma narrativa específica sobre o futuro.
É nesse ponto que o uso de ETFs ganha relevância estratégica.
Mais do que instrumentos eficientes de acesso a mercados, ETFs funcionam como blocos modulares de construção de portfólio. Eles permitem combinar, de forma simples e transparente, diferentes classes de ativos, regiões, estilos e fatores de risco, reduzindo a dependência de previsões pontuais e aumentando a robustez da alocação.
Em vez de buscar o “melhor cenário”, a lógica passa a ser:
- diversificar entre múltiplas fontes de risco;
- combinar ativos que reagem de maneira distinta a inflação, crescimento e juros reais;
- manter flexibilidade para ajustes conforme novos sinais surgem.
ETFs reduzem o custo de errar e ampliam a capacidade de adaptação. É possível reforçar ou reduzir exposições de forma rápida, sem a necessidade de grandes reestruturações, algo essencial quando mudanças estruturais ocorrem de forma inesperada.
Em um mundo de incerteza radical, investir bem não significa prever corretamente o próximo movimento da economia. Significa construir portfólios capazes de atravessar diferentes regimes, preservando a capacidade de ajuste e evitando erros irreversíveis. Cada vez mais, o foco do investidor se desloca da previsão para a engenharia de portfólio, e os ETFs ocupam um papel central nesse processo.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3