Após variante, 307 mil passageiros voaram de Manaus a outros estados

8 de março de 2021 118

Pelo menos 307,2 mil passageiros viajaram de Manaus (AM) ao restante do país após o surgimento da variante P.1 do novo coronavírus, que pode ser até 2,5 vezes mais contagiosa.

O dado se refere ao total de passageiros que embarcaram da capital do Amazonas – onde foi a identificada o primeiro caso da nova cepa – a outras cidades, entre novembro de 2020 e janeiro de 2021.

Esses números, extraídos junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), foram analisados pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles.

Apesar de o primeiro caso da variante P.1 ter sido identificado em 6 de dezembro no Amazonas, pesquisadores estimam que a cepa esteja em circulação no estado desde novembro.

O pesquisador Daniel Villela, coordenador do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), avalia se tratar de um número bastante expressivo.

“O fluxo de passageiros é algo que leva à disseminação do vírus. O novo coronavírus chegou no Brasil, por exemplo, através de grandes cidades e, depois, houve um processo de interiorização. Hoje, essa mutação já está circulando em vários estados”, diz.

A cidade que mais recebeu passageiros de Manaus nesse período foi Guarulhos (SP). O aeroporto internacional localizado no município paulista é também o mais movimentado do país.

Cerca de 87,6 mil passageiros voaram de da capital amazonense a Guarulhos no trimestre, o equivalente a 28,5% do total. Brasília, por sua vez, é a segunda no ranking, com 47 mil (25,3%) pessoas.

Também no estado de São Paulo, o Aeroporto Internacional de Viracopos recebeu 40,8 mil (13,2%) passageiros vindos de Manaus. Isso faz de Campinas (SP) a terceira cidade na lista. Confira:

A secretaria estadual de Saúde de São Paulo afirmou, em 26 de janeiro, ter detectado os primeiros três casos positivos de Covid-19 com a variante do novo coronavírus com origem em Manaus.

O Instituto Adolfo Lutz registrou a variante após sequenciamento genético de amostras colhidas em pessoas doentes que tinham circulado pelo Amazonas e que já haviam sido atendidas em hospitais públicos do estado.

Já em 13 de fevereiro, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, confirmou um caso de paciente infectado pela variante P.1 que não esteve no Amazonas.

Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, a linhagem já foi identificada em pelo menos 17 estados brasileiros.

Estudo do Observatório Covid-19 BR, em parceria com universidades do país, aponta que a cepa P.1 pode ser até 150% mais transmissível que a variante original do novo coronavírus.

A pesquisa, intitulada “Avaliação baseada em modelo de transmissibilidade e reinfecção para a variante P.1 do SARS-CoV-2”, foi publicada nessa sexta-feira (5/3) na plataforma MedRxiv (leia aqui, em inglês).

Uma das autoras do estudo, a bióloga Flavia Marquitti critica, em conversa com o Metrópoles, a falta de restrições de voos no país após a identificação da nova cepa do vírus.

O governo do Amazonas, bem como o federal, não tomaram medidas para restringir a circulação da nova variante da Covid-19, ao contrário do que ocorreu, por exemplo, no Reino Unido, onde também foi identificada uma variante mais transmissível.

A falta de ação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, inclusive, foi tema de ofício enviado pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Benjamin Zymler à pasta, em fevereiro.

Na lista de pedidos, o TCU solicitou informações sobre as ações relativas à elaboração de um programa de testagem para identificar a disseminação de novas variantes da linhagem do novo coronavírus pelo país.

O tribunal solicitou também esclarecimentos sobre iniciativas que foram adotadas para impedir a entrada de novas variantes no país.

“Quando se tem uma pandemia, e ainda mais estando fora de controle, é ideal avaliar quais são as condições de algumas regiões do país para o tráfego de passageiros”, relata Marquitti.

“Todos os cuidados para se evitar que o novo coronavírus se espalhe mais ainda devem ser tomados, mas as autoridades não estão levando a sério”, completa a biólogo, que faz parte do Observatório Covid-19 BR.

Fonte: METRÓPOLES/Tácio Lorran Lucas Marchesini