Caso PM Gisele: coronel fez sucessivas ligações antes de acionar 190

19 de março de 2026 19

Denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP), obtida pelo Metrópoles, indica que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto teria supostamente se orientado por telefone após o disparo que matou a esposa, a soldado Gisele Alves Santana. O objetivo seria construir uma versão sobre o caso. Análise do celular dele mostram que foram feitas “sucessivas” ligações por meio do aparelho.

O oficial foi preso nessa quarta-feira (18/3) pela Corregedoria da PM, em São José dos Campos, no interior paulista. Ele é acusado de feminicídio e fraude processual. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), acolheu à denúncia do MPSP no fim da tarde dessa quarta, um dia após a Polícia Civil formaizar o pedido de prisão do oficial.

Diante de dois pedidos de prisão, um da Justiça Militar e outro da Comum, o advogado Eugênio Malavasi entrou com um pedido de reclamação no Superior Tribunal de Justiça, ainda nessa quarta. “Ele está preso por duas Justiças distintas”, alegou. A defesa também sustenta que Gisele se suicidou.

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WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada

No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita

Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado

Soldado foi ferida com a arma do marido

Oficial teria comportamento controlador e ciumnto segundo testemunhas

Metrópoles já mostrou o histórico de ciúmes, controle e mensagens de teor machista atribuídas ao oficial da PM, constantes na denúncia do MPSP, a qual ainda aponta como elemento de acusação a conduta do coronel no intervalo entre o crime e o acionamento das autoridades.

Meia hora sem socorro

Segundo a Promotoria, o disparo ocorreu por volta de 7h28, dentro do apartamento do casal, no Brás. Ainda assim, o pedido de ajuda só teria sido feito cerca de 30 minutos depois, período após o qual o oficial também notificou seu superior hierárquico e amigos.

Para os investigadores, o intervalo é incompatível com a reação esperada de alguém que presencia uma tentativa de suicídio, versão sustentada pelo oficial desde o início do caso.

Tentativa de construir versão

A denúncia detalha que, nesse período, o coronel teria se movimentado pelo apartamento e manipulado elementos da cena. Foi também durante esse intervalo, segundo pedido de prisão da Justiça Militar, que ele teria feito as ligações, cujos destinatários não são especificados no documento obtido pelo Metrópoles.

Câmeras de monitoramento registraram também um comportamento considerado relevante, por colocar em xeque a versão defendida pelo oficial. “[Os equipamentos] flagram o denunciado com o cabelo seco. Em seguida ele entra no apartamento e molha seu cabelo, tudo para fazer parecer que estava tomando banho quando os fatos se deram”.

A Promotoria sustenta que a ação não foi isolada, mas parte de uma sequência de atos voltados com o intuito de induzir a investigação a erro.

Cena alterada para simular suicídio

De acordo com o MPSP, após atirar na esposa, o oficial teria manipulado o corpo e o ambiente do apartamento.

A denúncia descreve que ele colocou a arma nas mãos da vítima, escondeu o estojo da cápsula e alterou a posição do corpo, criando um cenário compatível com suicídio.

Além disso, o coronel teria lavado as mãos no banheiro e tomado banho mesmo após orientação contrária dos policiais que atenderam a ocorrência.

O denunciado “inovou artificiosamente o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de induzir a erro o juiz ou o perito”, diz trecho que embasa a acusação de fraude processual, que se soma ao feminicídio.

Comportamento pós-crime pesa no pedido de prisão

Para o Ministério Público, não é apenas o crime em si que justifica a prisão preventiva, mas a conduta posterior do acusado.

A denúncia afirma que o oficial demonstrou “completa insensibilidade” após o ocorrido e tentou manipular a versão dos fatos, inclusive dando declarações públicas que contradizem as provas reunidas.

Além disso, os promotores apontam risco de interferência na investigação, citando a influência hierárquica do coronel sobre outros policiais e testemunhas.

Versão confrontada pela cronologia

Esse novo eixo da denúncia — o comportamento após o disparo — reforça a linha adotada pelos investigadores nas últimas semanas, que passaram a questionar a hipótese de suicídio.

Reportagens anteriores já indicavam inconsistências na versão do banho e na dinâmica do ocorrido. Agora, a denúncia formaliza esse ponto como peça-chave da acusação.

Crime teria sido motivado por separação

Segundo o MPSP, o feminicídio ocorreu após a vítima decidir encerrar o relacionamento, marcado por conflitos e episódios de violência.

A promotoria afirma que o coronel agiu movido por “sentimento de posse” e, depois, tentou construir uma narrativa para escapar da responsabilização.

Pedido de condenação e indenização

O Ministério Público pede que o oficial seja levado a júri popular e condenado por feminicídio qualificado e fraude processual.

Também solicita a fixação de indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima.

O pedido foi parcialmente acolhido pelo Tribunal TJSP, no fim da tarde dessa quarta-feira (18/3).

Um ponto que muda o foco do caso

Se antes o caso vinha sendo narrado a partir do histórico de abusos e mensagens, a denúncia acrescenta a reconstrução do que aconteceu nos minutos seguintes ao disparo.

Para a acusação, não se trata apenas de um crime passional, mas de um episódio em que o autor teria tentado ativamente reescrever a cena do crime e, com isso, influenciar o rumo da investigação.

Fonte: Alfredo Henrique