Casos de assédio e violência motivam campanha de jornalistas: #DeixaElaTrabalhar

26 de março de 2018 403

Na tarde deste domingo (25), mais uma vez, uma repórter foi desrespeitada enquanto trabalhava. Kelly Costa, da RBS TV, foi insultada por um torcedor durante o jogo entre São José-RS e Brasil de Pelotas, em Porto Alegre. O caso coincide com o lançamento de uma iniciativa de mulheres jornalistas que luta contra a cultura do assédio, o machismo e a misoginia que permeiam o trabalho diário. A campanha #DeixaElaTrabalhar reúne cerca de 50 jornalistas de todo o Brasil que produziram um vídeo expondo uma série de comentários e ameaças feitos por torcedores nas redes sociais, além de publicizar relatos pessoais de assédio no ambiente de trabalho: “já aconteceu com todas nós”.

Não é difícil concluir que o caso de Kelly Costa não é raro. Dois exemplos recentes, no dia 14 de março desse ano, a jornalista Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, estava realizando uma cobertura ao vivo da partida entre Vasco e Universidad do Chile, no Rio de Janeiro, quando foi beijada à força por um torcedor; a repórter, assustada, seguiu a cobertura: “isso não precisava, mas aconteceu”. Também nesse mês, a repórter Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, estava cobrindo a partida entre Internacional e Grêmio, em Porto Alegre, quando foi agredida por um torcedor “sai daqui, sua puta”.

Também no ano passado, foi lançada a campanha Jornalistas Contra o Assédio. O estopim para a mobilização foi o caso da repórter Giulia Pereira, do site IGassediada pelo cantor MC Biel durante uma entrevista, e demitida 14 dias após a denúncia do caso. Além de um portal de informação, a campanha hoje denuncia diversas formas de assédio na profissão. Após o caso, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo lançou um canal de denúncia de casos de assédio sexual e moral contra jornalistas.

Gênero e Número

A pesquisa “Mulheres no Jornalismo” da Abraji e da Gênero e Número constatou que 59% das jornalistas que responderam a pesquisa presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada no exercício de sua profissão por uma fonte – como no caso do cantor Biel. Além disso, 70,2% das jornalistas afirmaram que já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada em seu ambiente de trabalho. Ainda nessa pesquisa,  revelou-se que 75,3% das jornalistas admitiram já ter ouvido, no exercício do trabalho, um comentário ou elogio sobre suas roupas, corpo ou aparência que as deixaram desconfortáveis.

O levantamento constata que há uma “naturalização de situações discriminatórias no ambiente jornalístico em prejuízo das mulheres”. O fato de ser mulher prejudica a profissional em suas relações de redes de fontes e contatos, além de expor a jornalista a formas específicas de estresse e risco no trabalho, causando um efeito negativo sobre o crescimento da profissional na área.

A mesma pesquisa também aponta que apenas 4,6% das jornalistas mulheres atuam na área esportiva. De acordo com o relatório, “esse quadro sugere uma certa divisão do trabalho jornalístico conforme os antigos estereótipos que apontam que os homens são mais aptos a trabalhar em áreas como esportes e tecnologia, enquanto mulheres teriam afinidade com temas como viagem, comportamento, moda etc”. Ainda assim, por mais que o terreno seja predominantemente masculino, é possível observar que dezenas de mulheres têm ingressado na área e a quantidade de apresentadoras e repórteres tem crescido – mas elas ainda precisam exigir o ingrediente mais básico para realizar seu trabalho: respeito.