Dos Jardins da Civilização aos Muros da Exclusão
Dos Jardins da Civilização aos Muros da Exclusão
por André Motta Araújo
O bairro dos “Jardins” em São Paulo, um aglomerado de quatro núcleos, os Jardins América, Europa, Paulista e Paulistano, sendo que dois são os mais icônicos, Jardim América e Jardim Europa, ambos criados por uma companhia inglesa, a City of S.Paulo Freehold Land and Improvements Co.Ltd., mais conhecida como Companhia City, são uma ilha verde que surpreende quem chega a S. Paulo de avião pela 1ª vez, uma imensa área cheia de arvores.
Os arquitetos ingleses desenharam as ruas curvas e as pracinhas elegantes e vieram em seguida as belas casas de época, em estilo bangalô californiano, colonial espanhol, provençal francês, georgiano, art deco, com muretas baixas circundando jardins tropicais, as casas, palacetes e mansões dialogando com a rua e a cidade, essa era a ideia dos planejadores britânicos, uma releitura de outras áreas-jardins em grandes cidades como Beverly Hills em Los Angelles, Beverly Drive em Dallas, Palermo Chico em Buenos Aires, Miraflores em Lima, sempre na ideia de integração dos bairros com a cidade.
Essa fase civilizatória dos Jardins, que veio de sua urbanização nos anos 20 até os anos 70, começou a ser desconstruída especialmente a partir dos anos 1990 e agora chega a um HORROR urbanístico, um bairro de altos muros, padrão PENITENCIÁRIA, isolando os terrenos da cidade, como se fossem projeções de outro País, uma espécie de enclave estrangeiro como havia em Shangai no começo do Século XX, onde chinês não entrava ou os bairros brancos de Johanesburgo nos tempos do “apartheid”.
Para agravar a deterioração dos Jardins, muitas casas foram vendidas por morte de seus donos originais e os novos donos, obviamente “novos ricos” de comédia de Marcos Caruso, derrubaram mansões lindas, históricas, de época, para no lugar enfiar casamatas de concreto sem janelas, estilo bunker alemão na invasão da Normandia, a arquitetura mais grotesca que um ser humano pode criar, estruturas agressivas, deprimentes, que enfeiam qualquer rua pelo seu aspecto de negação de humanidade. Junta-se então o muro alto estilo presídio de segurança máxima com um bunker sem janelas e teremos os horrores da arquitetura e do urbanismo a destruir um outrora lindo bairro residencial, um bairro que as pessoas visitavam como atração turística.
As casas vendidas eram em sua grande maioria de industriais e fazendeiros, os compradores são em sua quase totalidade do mercado financeiro.
O SENTIDO POLÍTICO DOS JARDINS DE HOJE
O sentido consciente ou subliminar é o do novo morador que quer distância da cidade e especialmente dos pobres que passam pelas ruas. É uma proposta clara de exclusão social, de agressão aos “outros”, de desprezo aos mais humildes, ao País, e a população transeunte que classificam como “povão”.
A QUESTÃO DA FACHADA
O mesmo novo rico que agride a cidade com seus muros viaja a Paris e Londres e se encanta com as casas, prédios e a harmonia das ruas com os prédios, sabe que isso só foi possível porque a FACHADA DE BAIRROS HISTÓRICOS PERTENCE À CIDADE e não ao dono do prédio. O dono não pode mudar a fachada, erguer muros e quebrar a harmonia urbana alterando seu imóvel. Há um padrão de INTERESSE GERAL a ser respeitado, acima do direito de propriedade, há uma clara noção de coletividade, de vida em sociedade que não admite uma cidade murada e de postura agressiva contra a cidadania.
Infelizmente não chegamos a esse estágio de civilização e cada um faz o que bem entende com seu imóvel, dane-se o coletivo e viva o meu interesse, tanto que os Jardins têm grande quantidade de imóveis recém construídos onde havia um tombado, todos fingem que não veem ou não sabem.
Mas além do lado de fiscalização da Prefeitura há um lado social em São Paulo. O Rio de Janeiro, com todas as suas mazelas, tem muito maior consciência urbanística do que São Paulo, há maior interesse na conservação de mansões de época, de prédios de época, do que em São Paulo com sua grande churrascaria de novos ricos incultos e que desprezam história, cultura, civilização, um grupo muito afinado ao Brasil de hoje.
A história dos Jardins é muito a história do Brasil social. Até os anos 50 havia em São Paulo um considerável número de pessoas bem-educadas, refinadas, de cultua e civilidade, uma sólida classe média que respeitava valores e conhecimento. Se é possível fixar um corte na história, a derrocada social dessa classe de paulista civilizado se deu a partir do governo Collor, que marcou o fim de um ciclo e o início de outro.
O paulista da civilização do café, da Semana de Arte Moderna, do chá das cinco com orquestra na Vienense, do Teatro Brasileiro de Comédia, foi desaparecendo para dar lugar ao tipo grosso, boçal, a arrotar dinheiro com carro importado, muitas vezes não é paulista, apenas morador da cidade, sem modos e sem educação, se reconhece à distância nos restaurantes e shoppings, tudo a ver com uma cidade cada vez menos paulista.
Para não dizerem que comento de passagem, fui morador dos Jardins por mais de 50 anos e conheço a história de cada casa.
AMA