Entenda a crise entre Bebianno e a família Bolsonaro em sete pontos
A tensão instalada entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, causou preocupações nos integrantes do governo e na base no Congresso. O caso, que tem origem em suspeitas de financiamento de candidaturas laranjas pelo PSL e desavenças antigas entre o ministro e o vereador Carlos Bolsonaro, chegou ao ponto de ebulição após o chefe do Executivo nacional admitir a possibilidade de Bebbiano sair do governo.
A crise ocorre no momento em que o Planalto tenta manter coesão para as negociações da pauta de votação mais importante no Legislativo, a da reforma da Previdência. Entenda o caso.
Suspeitas
No início de fevereiro, surgiram suspeitas de que esquemas de financiamento de candidaturas laranjas tenham ocorrido durante as eleições de 2018 no partido do presidente, o PSL. O primeiro integrante do governo citado no caso foi o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que era presidente do diretório do PSL em Minas Gerais.
Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, quatro candidatas em Minas receberam R$ 279 mil do comando nacional do partido. Elas ficaram entre as 20 candidaturas do partido que mais receberam recursos no País, mas tiveram baixa votação – menos de mil votos cada uma -, o que levantou a possibilidade de que as candidaturas tenham sido de fachada. O ministro negou as acusações.
Essa seria a primeira de uma série de suspeitas relacionadas a repasse de recursos para candidaturas do PSL.
Implicação de Bebianno
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, foi implicado diretamente nas suspeitas de financiamento de candidaturas laranjas cerca de 10 dias após a primeira reportagem sobre o caso. Bebianno, então presidente do PSL e coordenador da campanha de Bolsonaro à Presidência, teria aprovado o repasse de R$ 250 mil para a candidatura de uma ex-assessora. As prestações de conta mostram que o dinheiro foi repassado a uma gráfica em um endereço de fachada, que não tinha máquinas para impressões em grande escala.
Enquanto Bebianno era presidente da sigla, sete candidatos do PSL repassaram R$ 1,2 milhão a uma empresa de um dirigente do partido.
O valor – gasto em gráfica em um pequeno imóvel em Amaraji, na Zona da Mata pernambucana – é equivalente ao triplo do que a campanha de Jair Bolsonaro declarou em gastos com impressão de materiais gráficos. Entre os sete candidatos, só um foi eleito: o próprio presidente nacional do PSL, o deputado federal Luciano Bivar.
Inquérito da PF
A Polícia Federal entrou no caso oficialmente na terça-feira (12/2) quando intimou uma candidata a deputada federal pelo PSL, acusada de ter sido laranja durante as eleições, a prestar depoimento. A Procuradoria Regional Eleitoral e a Polícia Civil de Pernambuco também apuram o caso.
No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro disse, em entrevista à TV Record, que havia dado “carta branca” ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, para investigar o caso por meio da PF.
Desmentidos
Carlos Bolsonaro, filho do presidente, foi às redes sociais para dizer que Gustavo Bebbiano mentiu ao afirmar que teria conversado três vezes com o presidente na terça-feira (12/2). Ele também publicou um áudio que indica ter sido gravado pelo presidente em que Bolsonaro diz a Bebianno que não falará com ninguém.
“Falei três vezes com o presidente”, havia dito Bebianno em uma entrevista ao jornal O Globo, em que negou ser motivo de instabilidade no governo. Horas depois, Jair Bolsonaro endossou os ataques do filho ao republicar a mensagem, no Twitter, que continha o áudio.
“Voltar às origens”
No mesmo dia, o presidente admitiu a possibilidade de demissão de Bebianno, caso alguma irregularidade relacionada a repasse de recursos a candidaturas laranjas seja identificada. “Se (o Bebianno) estiver envolvido e, logicamente, responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, afirmou, em entrevista à TV Record.
Na conversa, gravada antes dos tuítes de Carlos Bolsonaro contra o ministro, o presidente ainda confirmou que Bebianno mentiu. Ele disse que não houve conversa entre os dois sobre as acusações contra o PSL.
Bebianno, por sua vez, afirmou à imprensa que não pretende deixar o cargo e confidenciou a amigos próximos que se o presidente quiser que ele saia, terá de demiti-lo.
Reações
A crise entre a família Bolsonaro e Bebianno acendeu o alerta na ala militar do governo e entre integrantes da base do governo no Congresso. O PSL tentou montar uma estratégia para impedir que a briga atrapalhe votações no Legislativo.
A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) pregou a separação entre o núcleo familiar do presidente e o governo. “O Palácio (do Planalto) não pode invadir a casa do presidente”, disse.
Após o episódio, interlocutores do presidente, principalmente militares, se convenceram de que “é preciso estancar” a ação dos filhos de Bolsonaro no governo. Há o temor de que, caso seja demitido, Bebianno possa causar problemas.
Histórico
Não é o primeiro atrito entre Carlos e Bebianno. O filho do presidente deixou a equipe do governo de transição em novembro após rusgas com o agora ministro. O vereador chegou a ser cotado para assumir a Secretaria de Comunicação da Presidência. A possibilidade foi comunicada pelo próprio Bebianno em novembro, após ser confirmado como futuro ministro. A atitude de Bebianno foi vista como precipitada e como um “afago falso”.
“Caráter não se negocia. Quando há compulsão por aparecer a qualquer custo, sempre tem algo por trás”, escreveu Carlos no Twitter, à época.
Mesmo com a saída oficial do governo, Carlos ainda é o filho mais próximo do presidente. Uma demonstração de prestígio do “zero dois”, como é chamado, ocorreu na posse de Bolsonaro, quando ele sentou no banco de trás do Rolls Royce presidencial, acompanhando o cortejo até o Congresso e o Planalto.