Entenda como a Câmara aprovou o primeiro turno da reforma política
BRASÍLIA — Às 21h de quarta-feira, líderes de oposição saíram do plenário da Câmara para conversar no salão verde da Casa, espaço amplo por onde transitam jornalistas e servidores. Iriam começar a debater uma proposta de acordo para descartar o distritão e chancelar o retorno das coligações proporcionais. A alternativa foi vista como um "mal menor", mesmo sendo o dispositivo uma mudança legislativa que incentiva a proliferação de legendas de aluguel.
Enquanto parlamentares discursavam contra ou a favor do distritão em plenário, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), manifestou sua preocupação sobre a ausência de partidos de esquerda na sessão, onde as decisões poderiam ser tomadas.
— E se a gente for chamado (para orientar)? — perguntou.
Foi avisada de que muitos oradores estavam inscritos. Daria tempo para debater e selar um entendimento sobre o texto, deliberado a toque de caixa.
Os parlamentares, então, se encaminharam para uma sala na liderança do PSD, partido de Gilberto Kassab, que orientou seus deputados a resistir tanto ao distritão como às coligações.
Para lá, também se dirigiu às pressas a relatora, Renata Abreu (Pode-SP), onde fez o último gesto para recortar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e atender aos diversos interesses de legendas.
Iniciada a reunião, mais deputados batiam a porta. Chegaram ao local parlamentares de partidos do Centrão e governistas. De fato, o desenrolar da sessão foi transferida para uma pequena sala, atochada de gente, com cadeiras amontadas à porta de entrada. Os assentos, trazidos da liderança do PTB e de outros locais, não cabiam mais no espaço.
Até o bolsonarista e líder do PSL, Vitor Hugo (GO), chegou a entrar para ver o que estava acontecendo. Quando percebeu que a maioria dos presentes era de partidos de esquerda, retirou-se.
— Eles pensaram: "o que ele está fazendo aqui?" — disse o deputado, rindo, ao sair.
O acordo para deixar apenas as coligações no texto e abandonar o distritão já era ensaiado desde a semana passada. Mas foi formalizado ali, com amplo apoio. Sem a anuência, porém, do PSD, que cedeu o espaço para o remendo de última hora. Do PT ao DEM, o assunto havia sido pacificado.
Mais cedo, o cenário era outro. Apoiadores do distritão acharam que tinham maioria e pagaram para ver. Pressionaram o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com o objetivo de adiantar a votação, que só estava marcada para esta quinta-feira.