Esquerda do PSDB acusa partido de ‘prática fascista’ em prévia vencida por Doria

20 de março de 2018 372

A vitória do prefeito de São Paulo João Doria Jr. nas prévias do PSDB para escolher o candidato tucano ao governo do estado no domingo 18, com 80% dos votos de filiados, é vista como “previsível” pela ala de esquerda da legenda. O segmento aponta a falta de debates antes das prévias e a condução do processo de blindagem do prefeito pelo diretório municipal como fatores de baixo risco à vitória de Doria. 

O coordenador da corrente “PSDB Esquerda Pra Valer”, Fernando Guimarães, diz que a ala pró-Doria no partido passou um “rolo compressor” sobre valores históricos do partido ao não abrir espaço para o debate com outros pré-candidatos, como o ex-senador José Aníbal.

“Ficou muito claro que a vontade não era buscar uma aproximação, um diálogo dentro do partido. Era conseguir uma vitória de uma maioria esmagando uma minoria, passando o rolo compressor. Isso é dizer que ele [Doria] não precisa passar pelo processo doutrinário, ideológico dentro do partido”, afirma. “Ele simplesmente esmagou um processo de debate dentro do partido”, reclama. 

Guimarães relata brigas em grupos de mensagens de dirigentes tucanos para explicar o clima de tensão causado pelas prévias. “Se instaurou uma prática fascista dentro do PSDB hoje. Nos grupos de WhatsApp do partido você é excluído se discordar de uma palavra, de uma vírgula daquilo que o seguidores do prefeito João Doria defendem”, afirma ele, que foi excluído de um grupo do diretório municipal após enviar uma entrevista de Aníbal. 

O líder da esquerda tucana chama de "deboche" para constranger os oponentes de Doria o valor de inscrição de 45 mil reais cobrado de cada candidato em disputa nas prévias. Com isso, de acordo com Guimarães, a vitória do prefeito deixa “evidente” uma divisão interna no partido. "Foi um processo de atropelamento e não de unir o partido, superar divergências, trazer o debate, assumir compromissos ideológicos para que gente saiba minimamente contemplar a socialdemocracia no programa do João Doria", diz.

Ameaça à Alckmin

O líder da Esquerda Pra Valer avalia que a vitória expressiva de Doria nas prévias pode alimentar as pretensões de Dória em desbancar o governador Geraldo Alckmin da disputa pelo Palácio do Planalto. Os tucanos se bicaram até o início deste ano pela indicação do partido à Presidência da República, mas o prefeito tirou o time de campo após críticas de que não estaria governando São Paulo para rodar o País na tentativa de alavancar seu nome nas pesquisas de intenção de voto.

Agora, o estilo de Doria fazer política é visto como ameaça à candidatura presidencial de Alckmin. "A gente não confia que seja uma pessoa de palavra ao ponto de dizer que é  candidato ao governo [paulista] e ponto. Ele pode sim representar alguém que não tenha noção de limites e tente se colocar no caminho do governador Geraldo Alckmin, como já se colocou. Isso é uma coisa que vamos estar muito atentos", diz Guimarães.

A ruptura com o vice-prefeito Bruno Covas é citada também como exemplo de falta de "lealdade" por parte do prefeito a quem o ajudou a vencer a eleição municipal de 2016. "Na política é fundamental ter palavra, compromisso e lealdade. Ele [Doria] não demonstrou lealdade nem ao Alckmin, nem ao Bruno Covas nem a com a população de São Paulo, com quem ele se comprometeu a ficar quatro anos [à frente da prefeitura]", diz.

O rótulo de "extrema esquerda" usado por Doria para rotular o vice-governador Márcio França (PSB), que vai assumir o governo após o afastamento de Alckmin e disputar a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, é criticada pelo Esquerda Pra Valer. "Acho que ele não sabe o conceito do que é ser esquerda, porque o PSDB é o partido da socialdemocracia brasileira e a diferença do que seria uma gestão do Alckmin e do Márcio França, do PSDB e do PSB, são muito poucas", sugere.

A avaliação é de que diante do enfraquecimento da imagem de que representa um gestor fora da política, a estratégia de Doria focaria na divisão esquerda e direita para angariar votos no eleitorado conservador do interior do estado. "O PSB aqui em São Paulo não é visto com essa agressividade que ele quer colocar", considera Guimarães.

De acordo com ele, apesar da denominação socialista usada pelo PSB, o partido representa um socialismo democrático em convergência do que é uma "socialdemocracia no mundo moderno". "PSDB e PSB são partidos que estão no mesmo campo político", afirma.