IMAGINE UM DONALD TRUMP DECIDINDO QUEM SOBREVIVE E QUEM MORRE

4 de fevereiro de 2026 21

dalton rosado
A DESESPERANÇA

"...em meio a essa imensa confusão, apenas uma coisa

é clara: estamos esperando a vinda de

Godot" (Samuel Beckett

Reina um niilismo passivo diante do fracasso dos ordenamentos políticos.

 

É uma constatação que se impõe, ainda mais se levarmos em conta o descompasso com o enorme ganho do saber adquirido pela humanidade ao longo do lento processo de apreensão do dito cujo e que, aos poucos,  ganhou celeridade nos últimos 50 anos. Isto se deu, com velocidade extrema, a partir do advento da microeletrônica/cibernética e seu uso em todos os aspectos da vida social.

Certamente que a política, enquanto esfera de apoio jurídico-constitucional de uma ordem econômica escravista estabelecida como forma de relação social funcional a partir de uma lógica contraditória e, portanto, ilógica, tornou-se disfuncional em face dos parâmetros modernos de produção social que lhe são antagônicos.

O trabalho abstrato, fundamento da escravização indireta pelo salário e correspondente extração de mais-valia (que é a base primária de uma economia fundada na forma-valor e que se reproduz cumulativamente, segregando os próprios trabalhadores a partir desse fundamento), tornou-se disfuncional, substituído que está sendo em maior parte pela máquina. 

Como consequência, o edifício da ordem jurídico-constitucional desaba juntamente com a razão de ser de sua existência: o apoio jurídico-constitucional ao capitalismo.    


A política tornou-se disfuncional por invalidez; tornou-se inativa como serva obediente sem soberania de vontade que sempre decidiu em favor do capital porque, com o advento da máquina (trabalho morto), em substituição majoritária do trabalho abstrato (trabalho vivo, assalariado), é o próprio capitalismo que sofre de anemia profunda por esvair-se o sangue que lhe mantem vivo. 

Ou seja, vive o momento da impossibilidade de reprodução aumentada do valor nos níveis necessários por seus próprios fundamentos; assim, a política ficou órfã impotente com a doença terminal do seu amo, o capital.

Este é o ponto fulcral da desesperança, ou niilismo passivo: a espera de um Godot que está morto, qual seja a política.

Como estamos todos acostumados a buscar respostas na institucionalidade política (incapaz de nos oferecer tais respostas), reina a desesperança, que se traduz num niilismo passivo.

Vivemos sob uma forma de relação social destrutiva daquilo que se pode considerar como saudável, seja do ponto de vista da materialização do provimento equânime das necessidades de consumo e demandas sociais básicas, seja do ponto de vista da afirmação das virtudes humanas como tais, ou seja ainda pela questão ecológica.

Além disso, o estágio atual das contradições capitalistas aponta para a destrutibilidade da sua própria forma, traduzida na criação de entraves que impedem a consecução do seu objetivo teleológico: a autorreprodução vazia de sentido humano do capital expresso no dinheiro e das mercadorias sensíveis cujo valor de troca se expressa no tempo-valor.


Ora, com a mecanização preponderante na produção de mercadorias, extingue-se substancialmente o critério de mensuração de trocas destas na guerra concorrencial de mercado de modo a que apenas aqueles grandes conglomerados capitalistas detentores de capacidade de investimento em capital constante em grandes volumes poderão produzir.

É evidente, portanto, que para a sobrevivência desse sistema de verticalização do poder sob critérios de produção controlados pela máquina e seus proprietários, já não será o valor abstrato o critério de mensuração da riqueza, mas a força absolutista político-militar a fornecer um voucher sobrevivência como recentemente propôs Elon Musk. 

Imagine um Donald Trump decidindo quem come e como se obter o alimento? Quem manda e quem obedece?  Quem vive (ou sobrevive) e quem morre?  

É preciso compreender que a máquina e o saber que a criou representam a transição de um modo de produção baseado na força muscular humana para um modo de produção mais confortável e produtivo alterando substancialmente o caráter da sociedade para pior ou para melhor, dependendo do nível de consciência e unidade que os segmentos majoritários da população possam ter sobre seus próprios destinos.

O claro crescimento da direita nos processos eletivos mundo afora, com o surgimento de partidos flagrantemente defensores dos famigerados postulados nazistas deriva da falta de uma proposição de relação social que negue o capitalismo na sua raiz constitutiva: o valor e a dissociação de gênero.

Não há democracia (se se quiser emprestar ao termo uma conotação de livre exercício da soberania da vontade) sob o capital, e não é votando que se rompe com a mesmice, posto que as eleições burguesas mais não são do que um canal de positivação de uma estrutura política de positivação do capital e que somente leva ao descrédito das massas eleitoras diante do fracasso da tentativa bem-intencionada de humanização do capital pelos partidos ditos progressistas.

Então, por que se insistir numa forma jurídico-constitucional-eletiva que comprovadamente é incapaz de prover as demandas sociais de modo equilibrado e aperfeiçoado, e que se deteriora a olhos vistos?
Neste ano de 2026 temos eleições e vai se repetir a polarização entre a direita (que possivelmente virá com uma tentativa de revestir o lobo na pele de um cordeiro) e a social-democracia trabalhista lulista (cujo conteúdo reformista e conciliador propõe a retomada de crescimento econômico, ou seja, mais capitalismo, como forma de crescimento do bolo que possibilite a distribuição de algumas fatias, como queria Delfim Netto nos anos 60).

Mas há alternativa a isso, e passa pela compreensão de que um novo modo de produção requer um novo caráter de sociedade. Podemos conjecturá-la? (por Dalton Rosado)

"Só sinto frio na alma, estou vazio de sentimento.

Não sinto água no corpo, nem amor, nem ferimento"

Fonte: CELSO LUNGARETTI
A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR CELSO LUNGARETTI )