INTERVENÇÃO NA VENEZUELA SERIA UM SALTO NO ESCURO. MAS TRUMP TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE...
5 de janeiro de 2018
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Em post desta 4ª feira (3), alertei que há um zunzum na mídia global sobre intervenção estrangeira na Venezuela. Deveria ter sido mais preciso e acrescentado que tudo partiu de uma sugestão do ex-ministro Ricardo Hausmann, assim ironicamente resumida pelo colunista Vinícius Torres Freire (que a comparou a um roteiro da franquia Rambo):
"A Venezuela deve ser invadida pelas tropas de uma coalizão formada por Estados Unidos, Europa e América Latina, a convite da Assembleia Nacional, de maioria oposicionista. Este exército de liberação daria apoio a um novo regime, que substituiria o governo de Nicolás Maduro, que teria sido impedido pelos parlamentares".
Em seguida apresento um consistente contraponto do Matias Spektor, que é doutor pela universidade de Oxford e leciona relações internacionais na FGV.
Ele deixa, contudo, de levar em conta o fator Trump. Há razões que a própria razão desconhece. Dentre elas, as que inspiram as decisões do presidente reality show...
Por Matias Spektor |
PROPOSTA DE INTERVENÇÃO ESTRANGEIRA NA VENEZUELA
É ESTAPAFÚRDIA
O professor de Harvard e ex-ministro de Planejamento da Venezuela Ricardo Hausmann sugere em artigo uma ação militar contra o regime chavista. Segundo a proposta, a Assembleia Nacional, hoje liderada pela oposição e combatida por Nicolás Maduro, convidaria uma intervenção estrangeira para restaurar a democracia, a partir da criação de um novo governo.
Por três motivos distintos, a proposta é estapafúrdia.
O primeiro diz respeito às alternativas reais de poder.
Durante os últimos 12 meses, Maduro aumentou os componentes autoritários de seu governo com grande êxito. Em que pese o estado da economia venezuelana, o regime goza hoje de hegemonia nas Forças Armadas e nas instituições de Estado.
A oposição está acuada, exilada ou presa, e as próximas eleições tendem a ser manipuladas. Além disso, a oposição está dividida. Não há um governo alternativo pronto para substituir o atual em caso de mudança forçada.
Hausmann: vivandeira da Casa Branca? |
O segundo motivo é geopolítico. Não há chance de uma intervenção ser liderada ou coordenada pelos países da América do Sul.
Ao contrário, a reação deles a uma proposta dessas seria contundente, cerrando fileiras contra o uso da força na sua vizinhança, especialmente se a intervenção não contar com a anuência do Conselho de Segurança da ONU, tal qual propõe Hausmann.
Sem apoio regional significativo, qualquer interventor perderia alavancagem política e alienaria sua posição junto aos latino-americanos por uma geração. Não se trata de opção viável para Estados Unidos ou Europa.
O terceiro motivo diz respeito à legalidade e à legitimidade de tal intervenção.
Há precedentes de intervenções militares a convite de governos constituídos –Afeganistão, Iêmen, Iraque etc. No entanto, o embate jurídico no caso venezuelano seria furibundo porque não há consenso de que a Venezuela represente uma ameaça à paz e à segurança internacionais, apesar da miséria humanitária que aflige a população.
Além disso, as primeiras denúncias contra a alta cúpula do governo por supostos crimes contra a humanidade e genocídio apenas chegaram ao Tribunal Penal Internacional em finais de 2017, e o secretário-geral da OEA acaba de criar um painel de investigação.
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Desabastecimento faz lembrar o golpe contra Allende |
De quebra, a última intervenção militar em favor de um grupo opositor –Líbia, 2011– foi um desastre. Não existe precedente bom.
A Venezuela encontra-se em seu pior momento, mas ir à guerra contra o chavismo no que seria a primeira intervenção na América do Sul no século 21 não é solução.
A Venezuela encontra-se em seu pior momento, mas ir à guerra contra o chavismo no que seria a primeira intervenção na América do Sul no século 21 não é solução.
Há alternativas para lidar com o problema que não trazem o risco embutido de uma aventura militar questionável e de resultado incerto.
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