Lockdown revolta empresários goianos, mesmo com colapso na saúde
Goiânia – Furiosos com as restrições adotadas em razão da pandemia da Covid-19, mais de 100 donos de bares e restaurantes voltam, nesta quinta-feira (11/3), a fazer vendas fechadas por meio de aplicativos de entrega, em Goiânia (GO), após suspenderem a comercialização em protesto de dois dias.
Na capital, um grupo também se manifestou na sede da prefeitura nessa quarta (10/3). Em todo o estado, milhares de empresários continuam revoltados com as medidas.
Apesar de serem criticadas pelos empresários, as medidas severas ainda não configuram lockdown. A expressão foi a que se popularizou entre a população. No entanto, a expressão em inglês remete a protocolo de isolamento que geralmente leva a confinamento das pessoas, enquanto as restrições atuais apenas reduzem a circulação delas.
Na capital, representantes de 14 mil bares e restaurantes protagonizaram a mais recente pressão contra a prefeitura para que as restrições sejam flexibilizadas. Isso ocorre em um quadro de acelerada disseminação do vírus e falta de leitos para Covid em hospitais de todo o estado. Associação de segmento de moda com mais de 15 mil lojas também reclama das medidas.
Nessa quarta, no mesmo dia em que a taxa de ocupação de leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) para Covid chegou a 99,57% em Goiânia, o prefeito de Goiânia, Rogério Cruz (Republicanos), se reuniu com representantes de bares e restaurantes, mas sinalizou que não deve relaxar as medidas.




Pedido em análise
O prefeito se comprometeu apenas a levar o pedido dos empresários sobre reabertura dos estabelecimentos ao Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública (COE). A proposta será avaliada junto aos demais dados que nortearão o novo decreto, que deve entrar em vigor a partir da próxima semana.
Em todo o estado, o índice de ocupação de UTI para Covid é de 98%, e a bomba-relógio na rede hospitalar aumenta com mais de 400 pessoas na fila por vaga em UTI ou enfermaria. Segundo decretos municipais, as restrições na capital e região metropolitana poderão ser revistas só se a taxa de ocupação de UTI não superar 70% por cinco dias consecutivos.
No caso de Goiânia, segundo o prefeito, até a abertura de mais de 120 leitos e credenciamento de 560 profissionais para reforçar o sistema de saúde municipal são insuficientes para flexibilizar as medidas ainda.
Indignação geral
Proprietário de uma hamburgueria na capital, Guilherme Cândido disse que abriu a loja em janeiro mas, por causa das restrições, as vendas caíram 90%. “Ficamos 100% dependentes do delivery. Como minha empresa é nova, ainda não tem muito delivery. Na segunda-feira, vendi R$ 120, sendo que, em dia normal, seria dez vezes mais que isso”, afirmou.
O empresário Daniel Landi, que tem restaurante na capital, contou que deu férias coletivas a partir desta semana. “É muito inviável ficar trabalhando apenas com delivery. Fiquei muito indignado porque, ao lado do meu restaurante, tem panificadora, onde se pode entrar, retirar produto e sair. Agora, no restaurante, não poder nem passar na porta. Foi abusivo”.
Decepção no interior
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio-GO), Marcelo Baiocchi, destacou que empresários do interior do estado também estão descontentes com as restrições em seus municípios.
“Em Itumbiara, houve decreto mais inteligente, porque restringiu, mas não proibiu o funcionamento do comércio. Mas outros municípios decidiram fechar tudo e colocar toque de recolher, como se o comércio fosse culpado de ter leitos, ou não, ou de propagar a doença, ou não”, reclamou Baiocchi.
De acordo com o presidente da Fecomércio, qualquer tipo de restrição “é muito ruim”, apesar da pandemia. “O comércio, sem abrir, é algo inconcebível porque isso proíbe e cerceia o direito do empresário de trabalhar. É uma situação muito difícil que o empresário, e o comércio em especial, está vivendo neste momento”, afirmou.
“Vai ser um pouco pior”
A Associação Empresarial da Região da 44 (AER44), que reúne mais de 100 galerias de lojas no polo de modas da região central de Goiânia, informou que 60 lojas foram fechadas, desde a semana passada, por causa das restrições impostas pelo último decreto. No ano passado, segundo a entidade, 2.500 pararam de funcionar de vez.
O vice-presidente da AER44, Lauro Naves, disse que a falta de perspectiva é preocupante. “Este ano, vai ser um pouco pior se o fechamento se prolongar. Se [a restrição] passar da semana que vem, começa a dar impacto grande”, acentuou.
A prefeitura de Goiânia ainda vai se reunir com técnicos da área da saúde para analisar se flexibiliza ou não as medidas.
Em Goiás, de acordo com monitoramento da SESGO, já foram registrados 418.588 casos de Covid-19, com 9.012 mortes.
Outros 260 óbitos estão em investigação. No estado, a taxa de letalidade da doença está em 2,15%.