Marielle foi no Rio, Lorca foi em Granada

18 de março de 2018 414

Em 18 de agosto de 1977, Steve Biko foi preso numa barreira policial, em Porto Elisabeth (South África) e interrogado durante 22 horas por oficiais da Polícia, espancado, torturado e acorrentado. Quase um mês depois, foi levado com múltiplas lesões e em precário estado físico a uma prisão, para morrer, em 12 de setembro daquele mesmo ano, aos trinta anos de idade. As lesões foram constatadas e fotografadas. Seu assassinato sob tortura foi provado, mas os policiais – autores do crime – foram inocentados pelo Sistema de Justiça do “apartheid”.

Graças a jornalistas honestos como Donald Woods, politicamente democrático e liberal branco, a brutalidade policial foi desmascarada e o crime cometido pelos agentes do Estado foi exposto ao mundo. Woods teve que sair do país para proteger sua própria vida e destacou-se como intelectual, militante e escritor anti-apartheid. Seu livro, “Biko”, foi transformado num excelente filme de denúncia do regime sul-africano, com uma poderosa interpretação de Denzel Washington, no papel de Biko. Ele não morreu em vão,  não foi o seu corpo somente um portador involuntário de uma tragédia odiosa, protagonizada pelo racismo e pelo fascismo. Foi um lutador brilhante, assassinado, como Mariella, que não morreu em vão.

Biko foi líder estudantil e dirigente político sem partido, ativista e escritor. Ele dizia para os seus companheiros de infortúnio, que sofriam o racismo e o preconceito erguidos à condição de política de Estado: “você está bem como você é, comece a olhar  para si mesmo como um ser humano.”  Em 1994 Nelson Mandela disse dele: “Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do “apartheid”!  Após sua morte, muitos de seus escritos foram reunidos num livro denominado “Eu escrevo o que gosto”, uma ironia contra uma penalidade imposta a Biko pelo Estado sul-africano, que lhe proibiu – durante um certo período – de falar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Queriam calar a sua voz de amor e liberdade aos oprimidos, como tentam calar a voz de Marielle.

Quarenta anos depois, aqui no Brasil, uma liderança política de esquerda com mandato parlamentar, integrante de uma comunidade avassalada pela pobreza, os maus serviços públicos, a exclusão e frequentemente submetida à violência ilegítima da Polícia, é brutalmente assassinada junto com seu motorista. Marielle e Anderson Pedro Gomes – como cantou tristemente Antonio Machado sobre o fuzilamento de Garcia Lorca em Granada – morreram pelas mãos de verdugos que “não ousaram olhar seus rostos”. Os verdugos não olham os olhos dos torturados, tentam roubar sua alma e laceram seus corpos acorrentados. Ou assassinam à traição: são os verdugos do mundo, de todas as origens e de todos os Estados.

A poesia de Antonio Machado canta: “Todos (os verdugos) fecharam os olhos; “rezaram”: (e disseram) ‘nem Deus te salva’: sangue na sua fronte e chumbo nas entranhas”. Agora, o povo pobre e negro do Rio, os brancos que amam a democracia e lutam por Justiça, juntos, cantarão sobre Marielle e Anderson, “a carne que não tens, os olhos que te faltam (…) (debruçados) sobre uma fonte, onde chore a água e eternamente diga” – não, que “foi em Granada” como contou Antonio Machado – mas no Rio de todos os crimes e também de todas as lutas. No Rio, cenário do conto de Machado de Assis, “Pai contra mãe” e  cenário da passeata dos cem mil, contra a ditadura. Do Rio, que renascerá dos escombros do medo e da memória dos seus lutadores, que mandará o fascismo para os esgotos da história e dará um recado para o Brasil.

Uma grande novela de Lewis Nkosi (1986) – escritor sul-africano exilado na Zambia, pelo regime racista do seu país –  termina com a narrativa de um condenado, nos cárceres do “apartheid”, acompanhando as vozes dos prisioneiros políticos, primeiro fracas, hesitantes, depois unidas, que se combinam “num único e potente som vibrante e estrondoso, sacudindo os próprios alicerces da prisão”, cantando as canções da liberdade. E o prisioneiro, que vai morrer, pensa: “Sim, aquelas vozes me acompanham. Eu não poderia exigir melhor despedida desse mundo do que essas vozes anunciando o iminente amanhecer da liberdade e, então, é claro, os pássaros turbulentos acasalando-se no céu!”  Marielle, fica em paz,  tua voz não será silenciada pelos cultores da morte e assassinos da utopia. Teu símbolo é dos pássaros turbulentos, acasalando-se no céu e tecendo uma rede, primeiro frágil e delicada, depois potente e estrondosa. Como foi a tua lúcida e luminosa presença no mundo. Não te calarão.

(*) Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.