No mundo da informação política, é possível ser imparcial?

18 de maio de 2022 94

O entrevistado da semana é Robson Souza de Oliveira, paraibano, advogado e jornalista, autor da coluna Resenha Política, publicada há vários anos em jornais impressos e em sites de informações. Robson foi um dos fundadores da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes, onde ocupa a cadeira nº 40, cujo patrono é o também paraibano e jornalista Paulo Queiroz.  

1. ARL − Por que Rondônia, já que a Paraíba possui atrativos mil? 

RO − Em primeiro lugar é bom estabelecer uma linha do tempo. Em 1984 concluí a graduação em jornalismo, época em que vivíamos uma ebulição política com a pressão popular pelas Diretas, já! O país atravessava uma crise econômica sem precedentes, com um governo enfraquecido pela inflação e por um movimento sindical vigoroso. Em Campina Grande, onde residia, colaborava com a imprensa denominada de alternativa: periódicos com conteúdo ideológico e sindical. Minha primeira experiência profissional foi exatamente nesta imprensa de cunho sindical, cujo conteúdo era bater com força no governo militar. Em segundo, os empregos nos jornais, Tvs e rádios convencionais eram reservados aos jornalistas com mais experiência, com melhor formação e com fontes privilegiadas. Dificilmente um foca (noviço) furava esta realidade. Percebendo as dificuldades de sobrevivência, comecei a pesquisar locais onde conseguiria um lugar ao sol. Sem a mesma concorrência, sem os guetos existentes nas redações e com novos desafios. Em contato com um amigo, soube que no novo estado (Rondônia) haveria boas oportunidades para começar na profissão. Imediatamente decidi vir a Rondônia sem saber o que encontraria, nem os amigos que faria, ao longo da vida. Foi a decisão mais acertada em toda a minha vida. Repetiria a mesma sina. Amo esta terra como se fosse a minha. Sou grato por tudo e, especialmente, à família que construí. Rondônia e Porto Velho são minhas primeiras paixões; minha Paraíba vem em seguida.  

2. ARL − O Direito ou o Jornalismo Político, o que mais o fascina?  

RO − Ambos me fascinam. Cada qual com suas facetas. O jornalismo me completa do ponto de vista espiritual e intelectual. O direto me completa pelas nuances com que o sistema processual se entabula na defesa constitucional daquele que dele necessita. Um completa o outro e ambos nutrem minhas visões filosóficas de liberdade, fraternidade e igualdade. O jornalismo é libertador. O direito é o instrumento fundamental ao estabelecimento de uma ordem em que seja possível o exercício da liberdade universal. Tanto mais justa é uma lei quanto mais ela se aproxima da racionalidade e realiza com isso a liberdade. Já a imprensa é o meio para que a verdade seja desvendada contra os que utilizam os meios para justificar os fins. 

 3. ARL – Os cientistas dizem que o ser humano é curioso por natureza, a ponto de a curiosidade ganhar status de instrumento do saber, uma ferramenta que aprendemos a disciplinar, organizar e focar. A pessoa já nasce com alguns dons, como a visão, a audição, etc. Mas, enquanto esses sentidos não precisam ser “trabalhados”, a curiosidade se educa, se desenvolve, se orienta e se dirige, como um sexto sentido. A sua Resenha nasceu da sua curiosidade pelo amanhã, por informações políticas vindouras?  

RO − Também. Mas nasceu concomitantemente às novas ferramentas tecnológicas. Quando percebi que aqueles belos textos longos, bem escritos e analíticos, a exemplo da obra sensacional produzida pelo Confrade Paulo Queiroz, já não teriam o mesmo espaço de outrora, tentei inovar. Uma vez que as novas ferramentas trouxeram a “informação” de forma rápida, concisa em tempo real, optei por escrever uma coluna com textos rápidos, sintéticos e de fácil compreensão. Sinto falta do texto mais elaborado, contudo a informação hoje é tempo real. Ninguém tem mais tempo disponível para ler aqueles textos longos e de conteúdos mais complexos e densos. Não há tempo para prolegômenos. Decidi, portanto, por uma coluna que o nome em si revela o objetivo: resenha mesmo. Tem espaço para furos (já dei vários), para análises conjunturais, críticas acerbas e pequenas informações sobre o cotidiano dos bastidores da política. Sei que nem todos os leitores gostam do que escrevo, mas o importante é que leiam. Há também aqueles que criticam, porque não gostam de mim. Paciência. Não dou a mínima para este tipo de crítica. Já estou calejado e com o lombo curtido.  

4. ARL – Você preserva as suas fontes? Já fez inimizades por se negar a dar o nome de um informante? Já foi autor de um furo jornalístico? 

RO − Já dei vários furos. Quem acompanha a coluna conhece muitos deles. Nunca ocorreu problema mais contundente com ninguém em razão da coluna. Já recebi milhares de reclamações, especialmente dos políticos. Mas nada que ultrapassasse a linha do respeito. Até amigos bem próximos reclamam quando algum apaniguado é alvo de denúncias. Tiro de letra. Sem maiores problemas. A crítica é importante em qualquer profissão senão ficaríamos emburrecidos. Quanto às fontes, não declino nem a pau. Nem sob vara. A fonte para um jornalista que se diz sério é inviolável. Autoridades já me inquiriram sobre uma ou outra, mas perceberam que era inútil. Desistiram. Minha coluna é quase cem por cento alimentada por boas fontes. Tenho o maior respeito por cada uma. Sem elas a coluna não seria nada. Mas sei perceber quando uma fonte quer usar a coluna para atingir os próprios objetivos inconfessáveis. Quando isto ocorre, apuro os fatos com mais cuidado e escrevo a minha versão daqueles mesmos fatos, diferente do que a fonte tentou veicular.  

5. ARL - A expressão “ter isenção” significa agir com imparcialidade, com neutralidade, não sacrificar a sua opinião à própria conveniência, nem para satisfazer terceiros. Você consegue ter isenção nas suas informações, ou na política é impossível ser isento? 

RO – Não é impossível ser isento. Isenção é descrever os fatos como eles ocorrem. Sem impor ao leitor as opiniões do redator. É preciso que o leitor receba a informação isenta, sem manipulação, para que ele possa, a partir dos fatos, formar a própria opinião. Infelizmente há colegas que tentam impor as suas opiniões como se elas fossem a verdade absoluta. Isto é imparcialidade. Quantos já foram vítimas da imparcialidade? O jornalista também erra. E muito. Quando opino sobre um fato político deixo claro que é minha opinião. Não manipulo os fatos para tentar fazer deles uma verdade absoluta.  

6. ARL – Qual a influência do falecido Paulo Queiroz, enquanto jornalista político, na sua vida profissional?  

RO − Paulo foi um dos maiores amigos de vida e de profissão. Era uma criatura incomum. Destemido, humano, solidário e, sobretudo, decente. Desprovido de vaidade. O melhor texto que já foi produzido na Amazônia. Foi o intelectual mais bem preparado com quem convivi. Paulo era capaz de falar o dia inteiro sobre política, filosofia, matemática e cultura. A sua influência não está apenas na profissão, mas na forma de ver o mundo. No trato com o próximo. Na humanidade. Este foi o melhor ser humano que conheci, embora fosse negligente consigo mesmo.  

7. ARL - Você nunca publicou um livro, mas foi admitido na ARL devido a sua cultura literária e às milhares de páginas escritas na mídia impressa e em sites de informação. Você tem ideia de quantas páginas já escreveu, na sua vida profissional? Se fôssemos agregar essas páginas, em formato de livro, quantos livros de História Política dariam? 

RO − Não sei quantificar. Mas escrevo a coluna, há vinte e sete anos. Quanto a livro, penso em fazer um pequeno esboço sobre nuances dos bastidores da política, mas já tenho algumas linhas publicadas num livro editado pela Academia numa coletânea com outros confrades, inclusive você. Não perde a importância de ser um livro.  

8. ARL – A ARL foi fundada para ser uma confraria, mas a discussão política polarizada tem afastado, de alguns de seus membros, o verdadeiro sentimento de amizade, de irmandade. Você consegue ser amigo/irmão de quem contraria suas posições políticas, é possível conviver na diferença, respeitando a opinião alheia, ou política, religião e futebol não se discute?  

RO −Tenho a absoluta certeza de que a verdadeira democracia é conviver também com os contrários. Me afasto quando minhas posições e meus sentimentos são desrespeitados. Ninguém precisa concordar com o outrem, mas a principal regra de convivência, em qualquer sociedade, é a tolerância. Não tenho paciência com intolerante. A este sim, reajo à altura e me afasto. O debate político ajuda o pensamento, o posicionamento crítico e o aprimoramento das ideias. Divergi com respeito ajuda no crescimento de um grupo social. Da própria sociedade em que vivemos. Agora, com truculento, não tem papo.  

9. ARL - Fofocas e fofoqueiros sempre existiram. Segundo os historiadores, o documento mais antigo contendo uma fofoca está num hieróglifo do médio império egípcio, datado do ano de (mais ou menos) 1300 a.C. Como separar a fakenews contemporânea de uma fofoca tradicional?  Se casual, verdadeira, a fofoca é inofensiva, divertida e faz bem à saúde, ou qualquer fofoca faz mal a imagem do político? 

RO − As fakenews são mazelas que lamentavelmente vieram para ficar. É preciso que as mídias sociais ajudem no combate a esta praga. É algo cruel, nocivo e covarde. Uma mentira lançada na rede mundial, quando é replicada, o resultado é devastador. Há casos de suicídio. Não é uma simples fofoca de comadres, aos moldes de antigamente, é algo cruel, pensado, com objetivo destrutivo. Fake é um vírus pandêmico.  

10. ARL – Ao longo dos anos e do Universo, surgiram várias lideranças políticas, que ainda hoje possuem seus nomes reverberados, como por exemplo Mandela, Guevara, Luther King e até mesmo Hitler?  Qual sua opinião sobre eles?

RO − Mandela – O maior estadista que conheci. Homem que lutou e morreu com os mesmos princípios e nos mesmos ideais. Sem se fastar um milímetro. Uma reserva moral e ética da humanidade. 

Guevara – Herói para os libertários dos anos sessenta. Bandido para os que o viam como apenas um guerrilheiro pronto para causar terror. Mas, quando avalio Che, contraditoriamente, ainda o vejo com os olhos da época. Um romântico de uma ideologia que atualmente não se sustentaria. Vivíamos sob a batuta da guerra fria, com as idiossincrasias da época. Hoje não seria tão amado quanto foi por duas gerações. Mas deixou um legado histórico.  

Luther king - Este foi a maior personalidade do século passado na defesa dos direitos civis americanos. Seu legado ultrapassou fronteiras e o sangue derramado é até hoje símbolo de uma luta contra a discriminação racial e pelos direitos universais dos homens. Sou um fã incondicional.  

Hitler – Na minha visão é a maior anomalia da humanidade. Não existiu ninguém mais nefasto na humanidade. Um escroque da pior espécie. Um genocida impiedoso, assassinou inclusive os familiares.  

Fonte: ROBSON OLIVEIRA
RESENHA POLITICA (ROBSON OLIVEIRA)

Jornalista, Advogado e colaborador do www.quenoticias.com.br - contato: robsonoliveirapvh@hotmail.com