O QUE SABEM OS RUSSOS ?

24 de fevereiro de 2019 301

Ignorado por completo do noticiário sobre o impasse na Venezuela, Vladimir Putin sabe – antes de mais nada – que a nova política de enquadramento e possível conflito na Venezuela é uma agressão americana frontal à Moscou. Muito além de uma trágica repetição do histórico de ingerências americanas nas suas “colônias americanas”, os russos estão plenamente cientes da trama que se passa. E pode ter certeza, há muito mais por debaixo dos panos desse complexo jogo de xadrez mundial do que se imagina.

Não é segredo para qualquer indivíduo bem informado que o governo chavista é uma pedra antiga no sapato americano desde os tempos do comandante Hugo Chavez Frias.  A contar dos primórdios do chamado “Bolivarianismo”, tentativas de Golpe já foram levadas adiante na Venezuela inúmeras vezes, todas sem sucesso. Entretanto, o que leva os EUA a tomar uma decisão de campanha massiva contra a Venezuela nesta altura, desta vez sugerindo uma campanha de envergadura maior que as outras ocasiões? O recente clima de regimes de exceção na América do Sul coordenados pelos EUA ajudam a explicar metade da história.

O estopim do tema Venezuela chegou e nada tem a ver com a preocupação de Washington com ajuda “humanitária” ao povo venezuelano. Transformações perigosíssimas no cenário além-mar atormentam os EUA já há um bom tempo, provocadas não só pelas derrotas no Oriente Médio (Iraque, Afeganistão, Síria) e Leste europeu (Ucrânia) mas também pela capacidade de Rússia e China ampliarem o seu destaque político e econômico pelos quais estão vocacionados na Eurásia.

Por exemplo, o governo saudita, histórico aliado dos EUA e um dos principais atores da OPEP (um dos instrumentos de pressão geopolítica mais poderosos que existem) se aproxima de forma cada vez mais evidente na direção de acordos energéticos com a Rússia e a China. Algo impensável há 20 anos atrás. O conceito de OPEP+ com a integração da Rússia em meio as negociatas de distribuição tubular em toda a Eurásia fazem os EUA suarem frio.

A Alemanha, gigante da União Europeia, expressa cada vez mais o seu descontentamento com o atolado e atormentado “business” Ocidental. A Alemanha quer e precisa da Rússia e indica, a cada dia que passa, o seu interesse de se integrar aos grandes negócios energéticos com os russos. Outro fato absolutamente impensável e inaceitável aos olhos da OTAN.

E a Venezuela? Os russos estão cientes de que diante de informações periclitantes como essas, onde pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA vêem o seu poder de influência ameaçado por novos atores globais e assim planeja grandes manobras estratégicas. Nunca, nem mesmo na História recente da Venezuela, os EUA desejaram tanto as jazidas de petróleo do país sul-americano.

O plano americano é conseguir implantar uma guerra híbrida com a Rússia a partir de um confronto econômico de maior expressão, minar a Rússia por dentro. Isso só é possível, no âmbito das disputas energéticas, com a tomada de todo o petróleo da Bacia das Caraíbas e por tabela das recentes descobertas de jazidas petrolíferas na Guiana britânica. Esse controle efetivo e direto sobre a extração de Petróleo permite os EUA terem um poder de manipulação de preços inédito, insuflando a possibilidade de uma rivalidade com a tradicional OPEP. Se um cartel como esse já é um instrumento de agressão e chantagem econômica enorme no Mundo, imaginem uma versão americana da OPEP com capacidades de produção petrolífera tão poderosa ou mais que a versão criada em 1960? A possibilidade de termos dois blocos de poder político e econômico em disputa é fortíssima e se torna aguda a cada dia mais.
Não é só sobre quem manda nas rotas navais e comerciais, mas quem detém os melhores negócios e contratos energéticos com as demais nações estratégicas do Globo. Em suma, o imbróglio na Venezuela excede em muitas vezes as fronteiras do próprio país sul-americano. “O buraco é mais embaixo”, por trás do assunto Venezuela existe uma queda de braços de proporções planetárias e que lembra, guardadas as devidas proporções de tempo e espaço, o cenário do “Grande Jogo” – série de disputas estratégicas no século XIX entre o Império Britânico e o Império Russo, cujos desdobramentos expandidos conduziram posteriormente à eclosão da I Guerra Mundial.