Porto Velho em mais uma rota migratória: Cubanos em fuga da fome e repressão

24 de fevereiro de 2026 22

Fugindo da fome, da escassez de serviços básicos e do controle rígido do regime militar cubano, famílias inteiras têm cruzado fronteiras em busca de dignidade, trabalho e liberdade. Nos últimos meses, Rondônia passou a integrar uma das principais rotas de conexão entre estado de cubanos no Brasil, transformando Porto Velho em ponto estratégico dessa labuta marcada por medo, sacrifício e esperança. Em hotéis simples próximos à rodoviária, histórias de dor e recomeço se multiplicam, revelando um fluxo migratório silencioso, porém crescente, que expõe a dura realidade vivida na ilha e o papel do Brasil como refúgio para quem já não consegue sobreviver em seu próprio país.

Por três dias e hospedada em hotéis diferentes próximos da nova rodoviária de Porto Velho, a reportagem do News Rondônia buscou personagens para tentar compreender as nuances dessa saga. Em todos os estabelecimentos que ficamos, uma assertiva: “A capital virou rota de esperança para cubanos que fogem da fome e repressão”.

Motivo do refúgio no Brasil

Fugindo do regime militar em Cuba, famílias inteiras têm buscado no Brasil a chance de recomeçar. Em Porto Velho, uma dessas histórias ganhou rosto e emoção. Em entrevista ao News Rondônia, uma família de seis pessoas relatou a jornada marcada por medo, esperança e superação. Com nomes e imagens preservados por segurança, Rosa, 54, licenciada em Letras, e Antônio, 59, agrônomo, contam que deixaram para trás uma vida inteira para escapar da escassez e da repressão. “Não era mais uma escolha, era uma necessidade para sobreviver”, disse Rosa. Segundo ela, a decisão veio após contato com coiotes feito por um irmão que já estava no Brasil. “Foi caro, perigoso, mas a vontade de viver falou mais alto. A gente precisava comer, precisava de dignidade”, completou.

Rota

A travessia incluiu a saída de Cuba com passagens de “férias”, justificativa dada ao governo cubano para não revelar o plano de ‘fuga,  para a Guiana Inglesa e Venezuela, países que não exigem visto de cubanos. Dois filhos seguiram pela rota Caribe–Guiana Inglesa–Boa Vista, em Roraima, enquanto os demais entraram no Brasil por Pacaraima. O reencontro aconteceu na rodoviária de Porto Velho. “Foi ali que sentimos que estávamos, enfim, em segurança”, relatou Antônio. Dos seis integrantes, quatro têm ensino superior e dois formação técnica, mas todos precisaram enfrentar dias de incerteza, longas viagens de ônibus e o medo constante da deportação. “Alguns se arriscam na rota pela Guiana Francesa, chegando pelo rio no Amapá, lá dizem que a vigilância é absoluta e estão impedido a passagem dos cubanos, de lá a uma grande chance de deportação”, citou.

Primeiras impressões

O impacto inicial foi emocional. Rosa chorou ao ver alimentos básicos disponíveis. “Eu chorei quando encontrei leite na farmácia. Parece algo simples, mas em Cuba isso é um luxo”, afirmou. Antônio se emocionou com o café da manhã do hotel. “Há anos eu não comia um pedaço de bolo. Lá, tudo é racionado. Aqui, tem frutas, leite, pão, chocolate, queijo, presunto, manteiga, tem opção de esquentar o pão. É outro mundo”. Segundo eles, a fartura e o acesso a medicamentos representam dignidade. “No meu país, uma dor de cabeça pode virar sofrimento por falta de remédio. Quando entrei na farmácia aqui próximo da rodoviária e vi a quantidade de medicamentos, era possível abastecer umas três províncias da ilha. Eu estou impressionada”, completou Rosa.

Rondônia, um estado visado

Porto Velho tem se consolidado como ponto estratégico de passagem, na realidade sempre foi. Por aqui, o nosso estado acompanhou o fluxo de haitianos, africanos, venezuelanos, indianos e agora de cubanos. Hotéis próximos à rodoviária relatam fluxo intenso de cubanos, muitos dividindo quartos para reduzir custos. Durante o dia, alguns buscam trabalho, outros seguem viagem, enquanto parte prefere não sair dos quartos por medo de abordagem policial. “Rondônia virou uma porta de entrada para quem foge do desespero”, comentou Francisco Nunes, funcionário de hotel.

Nunes explica que é agende de hotelaria há pelo menos 10 anos, e enxerga que falta mais apoio dos governos no caso dos imigrantes. É preciso uma ronda nos hotéis para tentar ajudar de alguma forma essas pessoas. “Não falo em dinheiro, mais falo em apoio jurídico, técnico. Alguns tem que trabalhar aqui por várias horas nos semáforos, pedindo ajuda de um e outro, para pagar o hotel e o que sobra compra comida e guarda a passagem para fora”, conta.

A crise em Cuba

Ao falar da realidade deixada para trás, Rosa e Antônio foram categóricos. “O governo tenta mostrar que está tudo bem, mas não está. Tem gente passando fome. Tem gente que morre de fome. Outros morrem de doenças que causadas pela falta de alimentação”, afirmou Antônio. Segundo ele, a crise energética e a escassez de alimentos tornaram a vida insustentável. “Vídeos mostram supermercados cheios para que os turistas do mundo possam ir pra ilha achando que um paraíso, mas isso não reflete a realidade. A ilha é extremamente controlada, até a comida para nós”. Para eles, a narrativa oficial esconde o sofrimento diário da população.

A expectativa

No Brasil, o sentimento é de gratidão. “O Brasil é nossa nova pátria. Queremos trabalhar, contribuir, crescer junto”, disse Rosa. Ela contou um episódio que simbolizou o acolhimento: ao lavar roupas em uma lavanderia, foi ajudada por um desconhecido que pagou a despesa. “Ele disse para eu guardar o dinheiro e comprar comida para minha família. Eu chorei.” Para eles, o Brasil representa esperança, dignidade e recomeço. É isso, só requeremos recomeçar e acho que seremos muito felizes aqui”, concluiu Antônio.

A família já seguiu para Volta Redonda, no Rio de Janeiro, onde receberam promessas de emprego em uma fábrica. A viagem ocorreu no período do carnaval, pela rodoviária de Porto Velho.

Fonte: Por Wanglézio Braga