Reforma Tributaria e o fim da gordura invisível: como o split payment vai expurgar do mercado quem sobrevive sonegando.

10 de outubro de 2026 43

 A reforma tributária não pune apenas o crime fiscal — ela desmonta o modelo de negócio de milhares de empresas que dependiam dele para respirar** 

Há um tipo de lucro que nunca aparece no balanço, mas sustenta a operação inteira: o imposto que deveria ter sido recolhido e não foi. Por décadas, esse "capital de giro invisível" funcionou como uma prótese silenciosa para segmentos inteiros da economia brasileira — pequenos varejistas, prestadores de serviço, indústrias de nicho — que, sem ele, jamais fechariam as contas do mês. A sonegação, nesse desenho, deixou de ser desvio pontual de caráter para se tornar variável estrutural de sobrevivência. É essa engrenagem que a reforma tributária, ao mudar a arquitetura de arrecadação do país, está prestes a desligar.

O novo sistema — batizado de split payment, ou pagamento fracionado — altera o momento em que o tributo sai do fluxo financeiro da empresa. Em vez de o imposto ser apurado e recolhido depois, em um ciclo que permitia à empresa reter o valor, aplicá-lo, postergá-lo ou simplesmente não declará-lo, o split payment separa automaticamente a parcela tributária no instante da transação eletrônica, direcionando-a ao Fisco antes mesmo de chegar ao caixa do vendedor. O floating tributário — o intervalo entre receber o imposto do cliente e repassá-lo ao Estado, historicamente usado como fonte de liquidez barata — deixa de existir. E com ele, desaparece também a margem de manobra que permitia omitir operações.

 ## A realidade: sonegar como estratégia, não como exceção 

Não é acidente que a informalidade tributária tenha prosperado justamente nos setores mais pulverizados e competitivos da economia. O Brasil combina, há mais de uma década, crescimento medíocre do PIB com uma natalidade empresarial desproporcional: abrem-se negócios em ritmo superior à capacidade de absorção real da demanda. O resultado é a saturação de mercados — dezenas de concorrentes disputando a mesma fatia estagnada de consumidores —, o que empurra as margens legais para perto de zero e transforma a sonegação em vantagem competitiva de facto, não em desvio moral isolado.

Nesse ambiente, dois perfis de sonegador convivem sob o mesmo rótulo penal, mas com racionalidades distintas. Há quem sonegue por ganho fácil, capturando margem extra em mercados onde a concorrência ainda permitiria operar dentro da lei. E há quem sonegue por sobrevivência, em segmentos onde a competição destrutiva já corroeu toda a margem lícita, tornando o recolhimento integral do tributo incompatível com a permanência no negócio. O split payment não distingue entre os dois. Ele elimina, de forma indiscriminada, a válvula de escape que mantinha ambos operando — e é exatamente por isso que seu impacto será mais parecido com uma seleção de mercado em massa do que com uma simples melhoria de compliance.

O custo dessa distorção histórica não recaiu apenas sobre a arrecadação. Trata-se de ineficiência alocativa clássica: capital, mão de obra e capacidade produtiva ficaram represados em empresas cuja existência só se justificava pela omissão fiscal — negócios que, descontado o imposto sonegado, jamais teriam viabilidade econômica real. Cada real desviado do Fisco por essa via é também um real que não foi alocado, via política pública, em áreas de retorno social mais alto. E cada empresa "zumbi fiscal" que sobrevive apenas pela sonegação ocupa espaço de mercado que poderia ser tomado por um concorrente eficiente e regular.

 ## O embate: quem paga a conta da transição 

A confrontação em torno do split payment não opõe reformistas a sonegadores — seria um enquadramento simplista demais para um problema estrutural. De um lado, técnicos da equipe econômica e órgãos de controle argumentam que o novo sistema apenas devolve ao Estado uma capacidade de fiscalização que a economia digital tornou tecnicamente viável, corrigindo uma distorção competitiva histórica: empresas que sonegam hoje competem em vantagem desleal contra as que recolhem corretamente. Nessa leitura, o aumento da eficiência arrecadatória não é um fim em si, mas a correção de um campo de jogo estruturalmente desequilibrado.

Do outro lado, associações empresariais e parte dos economistas setoriais alertam para o efeito colateral concreto: a exigência de capital de giro adicional, num momento em que o floating desaparece, pode gerar uma onda de encerramentos que a política pública não está dimensionando corretamente. Não se trata de defender a sonegação, argumentam, mas de reconhecer que o Estado, ao mesmo tempo em que estimulou por anos a abertura de pequenos negócios como resposta política ao desemprego — colhendo o dividendo eleitoral da geração de vagas —, agora exige desses mesmos negócios um padrão de eficiência financeira que boa parte nunca teve estrutura para atingir. A transição demográfica empresarial, nesse sentido, tende a ser abrupta: estima-se que os primeiros três anos de vigência plena do novo sistema concentrem a maior parte dos fechamentos, um expurgo comprimido no tempo, e não uma depuração gradual.

Há ainda uma terceira camada de tensão, menos discutida: a assimetria de informação entre empresários. Quem compreender cedo que seu modelo de negócio depende estruturalmente da sonegação — e não apenas a utiliza como margem extra — tem uma janela estreita para encerrar a operação de forma ordenada, liquidando ativos e saindo do mercado com algum resultado positivo, em vez de esperar a insolvência forçada pela falta de liquidez. Essa é uma decisão de gestão, não de conformidade moral, e tende a separar empresários pragmáticos de empresários que apostarão, até o limite, na manutenção do status quo.

 ## O que resta depois da depuração 

O split payment não resolve, por si só, os problemas estruturais que empurraram tantas empresas para a informalidade fiscal — a saturação de mercados, a baixa dinâmica de crescimento, a política pública que confunde abertura de empresas com desenvolvimento econômico continuam de pé. O que muda é o instrumento: a sonegação deixa de ser uma opção operacional disponível, e o mercado terá de absorver, em prazo curto, o ajuste que vinha sendo empurrado com a barriga há anos.

Se o resultado será um tecido empresarial mais eficiente, com menor capacidade ociosa alocada em negócios inviáveis, ou uma contração dolorosa de emprego e renda em setores já fragilizados, é a pergunta que dividirá economistas e formuladores de política nos próximos anos. O que parece certo é que a arrecadação vai crescer — e que essa alta virá, em boa medida, do fechamento de portas, não da ampliação da base produtiva.

Fonte: OER - Observatório da Economia Real.
JABURU DIRETO AO ASSUNTO

Chegou 2016. E aí rei da cocada? E aí autoridades? 1 – Ano de eleição. Não fez, não fez! Político promessa é igual produto ruim. Experimenta-se somente uma vez. 2 – E aí a propaganda? Prometeu. Mentiu. Não fez. Não cumpriu. Enganou. Difícil apagar da mente. Não adianta gastar a grana do povo. Tirar foto com fotoshop. Vai ter que tirar do ar. Os da lei mandaram! 3 – E tem mais! Aguenta a oposição mostrando e reprisando as notícias das promessas e das maracutaias. 4 – E as maracutaias “novas”? Tem muita gente calada. Por conveniência. Muda nunca! Amordaçada muito menos! E roubo não se esconde e muito menos se esquece. Os caminhos ficaram marcados e o pior, documentados. 5 – Tá tudo scaneado e filmado. E haja sacanagem! Como diz o caipira. “Na roça tem hora pra tudo!”. “Pra cume, pra bebe, pra trabaia, pra caga e pra fala mar dosoutros”. 6 – E a elite está preocupada. A tropa já está em campo avaliando suas empatias. 7 – Cidade e mente. Ambas pequenas. É assim! Querem vencer pela empatia e pelo poder. Tudo no interesse próprio. 8 – E a elite mostrando --- o ruim que “gostam” e o bom que não os “serve”. O município se desenvolve, mas as cabeças dominantes são permanentemente contaminadas, agora pelo Zika Vírus. “E a Cidade faz a sua metamorfose atropelada e empurrada pela população, mas continua o berço da elite dos homens de cabeça pequena”. --- Praga que resiste ao tempo. Participe. 9 – Esta coluna é escrita com a participação de várias pessoas e Você poderá participar e contribuir enviando e-mail para: jaburu.ro@gmail.com 10 – Envie sua observação, crítica, matéria, sugestão, pauta, direito de resposta, etc, em até quatro linhas.