Sartori, de salvador da pátria à exterminador do futuro
Vivemos um momento peculiar no Rio Grande do Sul. Pessoas são usadas como escudo humano na crescente onda de assaltos à bancos no interior do estado e o governador não diz nada e muito menos se solidariza com as vítimas. E para tentar minimizar o problema, o secretário estadual da Segurança apresenta à imprensa dados estatísticos que em nada condizem com o clima de total insegurança vivido pelos gaúchos, indistintamente.
E a desconexão com o interesse público chega a tal ponto que o secretário estadual da Educação tem o desplante de declarar publicamente o seu arrependimento por não ter fechado mais escolas do que fechou. E mais uma vez o governador se manteve calado e insensível, apesar da indignação provocada na comunidade escolar.
Obcecado pela inclusão do Rio Grande do Sul no Regime de Recuperação Fiscal, Sartori parece desinteressado pelas coisas que impactam diretamente a vida dos gaúchos, fato este que pode ser comprovado pela inexistência, antes e depois de assumir, de um plano viável de recuperação econômica e de desenvolvimento.
Um exemplo lamentável dessa desconexão com os grandes interesses do estado é o desmonte do Polo Naval de Rio Grande e de São José do Norte. O que até pouco tempo era visto como a redenção econômica da historicamente deprimida metade Sul foi simplesmente riscada do mapa pelo governo federal. E, mais uma, vez, o governador nada disse e nada fez para impedir que milhares de empregos fossem extintos e que as duas cidades deixassem de ter o surto de empreendedorismo que já se fazia sentir.
Sem a devida responsabilização pelo Poder Legislativo e sem a cobrança da grande mídia, Sartori age como se não tivesse nada a ver com isso. Como se tudo não passasse de algo previsível e plenamente digerível. Ocorre que ele tem sim responsabilidade sobre o fato. Por que não usou o cargo e o compadrio político com o presidente da República para impedir a desconstrução do Polo? Por que o Polo Naval foi uma conquista promovida pelo PT? Mas então como fica o slogan “Meu partido é o Rio Grande”?
E como se não bastasse o silêncio palaciano, também as entidades empresariais e a imprensa, incompreensível e injustificavelmente, permaneceram omissos durante todo o processo. Ora, tamanha complacência com a União e a manutenção da rotineira timidez com o fomento de iniciativas que coloquem o Rio Grande no caminho do desenvolvimento, servem para justificar o porquê da lentidão na execução de obras vitais para a economia gaúcha, como é o caso das duplicações das BRs 118 e 386 e da construção da segunda ponte sobre o Guaíba.
Quem quer ser grande não pode pensar pequeno. Quem deseja resolver problemas não pode ressaltar as dificuldades. Esse Rio Grande do possível, do conformismo, do acanhamento e da ameaça do caos inevitável, só serve como tentativa de justificar fracassados e inibir esperanças. É por isso que soa como ficção, para não disser ilusão, o tema escolhido por Sartori para sua palestra no Tá na Mesa, da Federasul, “O futuro do Rio Grande a gente faz agora”.
Agora? Depois de três anos e quase três meses de governo? Como acreditar nisso se a marca desse governo é justamente a desconstrução? Da extinção de fundações e pesquisa; do fechamento de escolas; da retirada de conquistas trabalhistas e do parcelamento de salários do funcionalismo; da sensação de insegurança que se disseminou por todos os municípios; da absoluta falta de investimentos nas áreas vitais da educação, saúde, segurança e infraestrutura; e muito mais.
O Rio Grande só não está em pior situação porque aquilo que não depende diretamente deste governo vai bem. Tal qual erva daninha, onde o Estado se intrometeu o viço não prosperou. Essa é a regra. Isso explica a estagnação da receita, está sim uma solução, que se tivesse sido priorizada e aumentasse traria resultados positivos e objetivos na busca de uma solução para a crise financeira do erário. Mas não, o governo emedebista preferiu se lamentar da má sorte e permanecer chorando sobre o leite derramado, maldizendo o governo anterior e responsabilizando os servidores estaduais pelas mazelas do déficit público.
Ao usar como estratégia a demonização do passado e ao superestimar as dificuldades do presente, Sartori abdicou do discurso da união e da solidariedade, ferramentas indispensável para a superação dos momentos de crise. Com a população à margem do governo, sem nunca ter sido ouvida ou consultada, e com um funcionalismo magoado e desmotivado, beira a ironia e/ou sarcasmo o tema da palestra do governador na Federasul.
De todas as certezas do momento, a maior de todas é a de que os gaúchos não precisam e não merecem a reedição do discurso vazio de uma campanha que foi alicerçada na desfaçatez e da continuidade de uma administração pachorrenta, infrutífera e predatória. Mas uma coisa não pode ser negada, o futuro do Rio Grande será construído sim, agora, neste ano, mas não pelos atuais ocupantes do palácio Piratini, mas pelas urnas, nas eleições de outubro.
(*) Jornalista
(Foto: Guilherme Santos/Sul21)