Vorcaro negociou com Justus, fechou com BRB e recebeu 170% a mais

3 de outubro de 2026 25

Quando tornou-se público que cerca de 30% das cotas da Steelcorp, de Roberto Justus, pertenciam ao Banco Master e haviam sido repassadas ao BRB, o empresário veio a público para dizer que nunca soube que o banqueiro era o investidor por trás de um fundo parceiro.

Mensagens reveladas agora, porém, mostram que Justus não só sabia como tentou convencer Vorcaro a aceitar uma operação complexa para vendê-lo as ações por R$ 130 milhões, a prazo. O banqueiro paralelamente negociava as mesmas ações com o BRB e conseguiu fechar com o Banco de Brasília um negócio muito mais interessante. Recebeu R$ 350 milhões à vista, 170% mais.

Vorcaro aportou R$ 130 milhões na Steelcorp, uma empresa de estruturas modulares para a construção civil, em julho de 2024. Como de costume, fez isso a partir de uma cadeia de fundos da Reag: o Dynamic, diretamente, e o SH FIPM, indiretamente. Na documentação enviada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), só o Dynamic apareceu, porém.

Em meados de 2025, Justus passou a procurar Vorcaro de forma insistente, como mostra uma troca de mensagens obtida pela Polícia Federal e revelada pelo site Poder360. Queria convencer o banqueiro a rever os termos do investimento. “Nunca na minha vida fiquei tão decepcionado com alguém. O que me custa me receber por uma horinha para resolvermos aquele assunto“, escreveu Justus.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“Se essa dívida continuar em meu balanço, vou ter que pedir uma RJ (recuperação judicial) e daí você vai perder todo o investimento”, continuou o empresário, deixando claro saber quem era o investidor da Steelcorp.

Vorcaro cedeu e perguntou como era a ideia de Justus para a recompra. “Assumo o pagamento dos 130MM (R$ 130 milhões) em prazo máximo de cinco anos“, explicou, detalhando em seguida as garantias. O banqueiro pediu um fluxo de pagamento garantido para o fundo e Justus retrucou: “Mas o cotista do fundo não é você?”, reforçando o conhecimento.

Em 4 de setembro, conforme as mensagens publicadas pelo Poder360, veio a proposta de Justus para a “recompra” das ações de Vorcaro: pagamentos escalonados em quatro anos e os 50% restantes no quinto ano. À noite, sem resposta, o empresário melhorou a oferta, com pagamento em quatro anos. Vorcaro topou, mas Justus voltou atrás e fez novas exigências, o que irritou o banqueiro.

“Para começar eu não quero sair. Acredito no negócio e, mais do que isso, acredito em você. Estou topando sair sem qualquer prêmio e num prazo longuíssimo, para atender e ajudar, só por isso. Mas eu não ter ao menos o valor que aportei garantido ao longo do tempo não faz o menor sentido”, justificou. O problema era que Vorcaro havia colocado R$ 130 milhões na empresa e Justus aceitava devolver o dinheiro a longo prazo, sem garantias suficientes e sem qualquer ganho ao banqueiro.

BRB pagou 170% a mais e à vista

Enquanto essas conversas aconteciam, o Master estava com a corda no pescoço, corria risco de fechar as portas a qualquer momento e precisava entregar ao BRB ativos com alguma qualidade em troca de carteiras podres vendidas nos meses antecedentes. Vorcaro já tinha inclusive oferecido a participação na Steelcorp ao BRB, por R$ 500 milhões.

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal, já reveladas pela coluna, mostram que Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, montou sua oferta topando pagar R$ 250 milhões pelas cotas na Steelcorp. Em 2 de outubro, há exatamente um ano, o BRB formalizou a aquisição do fundo SH FIPM, onde estavam as cotas da empresa de Justus, por R$ 350 milhões, apesar de parecer de risco destacar que o banco sequer tinha recebido comprovação de que o Master era beneficiário do fundo.

Documentação juntada pela defesa do advogado Daniel Monteiro no âmbito de um dos inquéritos que correm no STF detalham que os documentos da transação desejada por Justus chegaram a ser produzidos: o distrato do aporte da cadeia Dynamic/SH, a sessão de crédito decorrente de seis notas comerciais da Steelcorp para Justus e o contrato de garantia de pagamento por parte do empresário, em um negócio de R$ 130 milhões. Ao que tudo indica, o negócio foi desfeito porque as ações acabaram vendidas para o BRB.

Conversas desmente Justus

A relação entre Vorcaro e Justus começou a ser desnudada em janeiro deste ano, quando a Folha publicou que o SH, o fundo da Reag que tinha 30% na Steelcorp, era controlado pelo Master. Ao jornal, o empresário disse que só descobriu que tinha o banco de Vorcaro como sócio após a deflagração da Operação Carbono Oculto.

Depois, foi às redes sociais para dizer que não tinha como saber que Vorcaro estava por trás do fundo da Reag que viabilizou a Steelcorp. “Nosso sócio era o fundo de investimentos e a empresa investida não se relacionada com esses cotistas. Quem faz o papel de sócio é o gestor do fundo. O que a lei não permite é saber quem são os cotistas desse tipo de fundo durante a sua existência”, afirmou, sem explicar por que não perguntou quem eram os cotistas antes de aceitar o investimento, diligência comum no mercado.

No vídeo, ele detalha que, após a Carbono Oculto, entrou com notificação judicial exigindo saber quem eram os cotistas e quem seria o novo gestor que iria gerenciar o fundo. “Foi aí que nós descobrimos”, ele afirmou. A Carbono Oculto aconteceu no dia 28 de agosto de 2025. Nesse dia, Justus já insistia em ser recebido por Vorcaro.

A coluna procurou Roberto Justus a partir de um seu contato particular no Whatsapp e a partir dos canais da Steelcorp, mas ele não respondeu. O espaço segue aberto.

 

 

Fonte: Demétrio Vecchioli