A metamorfose de Lula
Fernando Tupan
Lula sofreu uma metamorfose digna de Kafka depois de preso. Segundo contam seus insuspeitos advogados, o ex-presidente, que considerava a leitura uma atividade enfadonha, que comparou a andar em uma esteira ergométrica, tornou-se um leitor ávido.
Estaria lendo, segundo seus advogados apologistas, best-sellers esquerdistas com a mesma voracidade com que secava garrafas de vinho Romanèe-Conti presenteados por amigos desinteressados.
Mas a metamorfose mais impressionante se deu com relação ao Judiciário. Lula, que foi gravado fazendo referências recheadas de palavrões cabeludos ao STF e STJ, a quem chamou, na parte menos escatológica do grampo, de cortes "totalmente acovardadas", agora se preocupa com a possibilidade que a nossas honoráveis cortes superiores estejam sendo desrespeitadas.
Em carta contrabandeada do cárcere, escrita em um português impecável, com concordâncias e plurais nos conformes (outra metamorfose surpreendente), Lula esbraveja contra supostos desrespeitos ao Judiciário.
"Fiquei perplexo ao saber que o Moro e o Ministério Público não vão cumprir a determinação do STF", diz Lula à presidente do PT, Gleisi Hoffmann, em trecho divulgado pela colunista Daniela Lima, na Folha de S. Paulo. "Que país é esse em que uma instância inferior desacata a superior, em que um juiz de primeira instância desacata os ministros da suprema corte?"
Deve ser o mesmo país em que um sindicalista se elegeu presidente garantindo que iria instalar a ética na política e organizou e comandou o que foi considerado o maior esquema de corrupção da história do planeta. Um doutor honoris causa em roubalheira.