Aos prantos, a mulher aparecia contando que soldados ucranianos haviam crucificado publicamente um menino de três anos de idade diante de sua mãe, “como se ele fosse Jesus”, enquanto o garotinho gritava, sangrava e chorava.
“As pessoas desmaiavam. O menino sofreu durante uma hora e meia e depois morreu. Em seguida, foram para sua mãe”, disse ela.
Mas tudo era mentira.
Na verdade, não só isso não aconteceu, como o local também foi inventado: “Eles disseram que o Exército (ucraniano) encurralou os moradores locais na Praça Lenin, na cidade de Sloviansk, mas essa praça não existe”, diz Yurkova.
Apesar disso, essa “notícia” teve grande alcance e apareceu em vários estudos como exemplo de “desinformação” nos meios modernos de comunicação de massa.
Para a Rússia, foi “uma boa peça de propaganda”, escreveu o jornalista Andrew Kramer em um artigo do New York Times, em fevereiro de 2017.
“Durante a crise ucraniana de 2014, notícias manipuladoras e, muitas vezes, totalmente inventadas foram divulgadas a partir da televisão russa e de websites para jornais locais favoráveis”.
A história do menino crucificado não apenas enganou a muitos na Ucrânia e na Rússia, mas também os motivou a “pegar em armas”, disse Yurkova.
Por isso, adverte ela, as notícias falsas “são uma ameaça à democracia e à sociedade”.

2. A menina do Kuwait e a invasão do Iraque
Outro exemplo de fake news de grande repercussão mundial teve como protagonista uma outra menor de idade: Nayirah, uma menina kuwaitiana de 15 anos que denunciava atrocidades cometidas por invasores iraquianos em seu país.
Naquele momento, a opinião pública americana estava dividida, mas mais inclinada a apoiar a não-intervenção.
Foi nesse clima que Nayira apareceu diante do Congresso dos Estados Unidos com uma história brutal em que assegurava que os soldados iraquianos retiravam bebês prematuros de incubadoras de um hospital no Kuwait, onde disse ser voluntária.
“Eles levaram as incubadoras e deixaram os bebês morrendo, jogados no chão frio”, disse ela, entre lágrimas.

O impacto do seu testemunho foi tal, que muitos no Ocidente se convenceram de que era preciso expulsar as tropas de Saddam Hussein.
O que não sabiam era que o depoimento, na realidade, havia sido preparado por uma agência de relações públicas nos Estados Unidos ligada à monarquia do Kuwait, segundo revelou uma investigação conjunta da Anistia Internacional, da Human Rights Watch e de jornalistas independentes.
A menina que havia testemunhado era filha de Saud Nasir al Sabah, o embaixador do Kuwait em Washington.
“Sua fala dura cerca de 3 minutos e ainda é um testemunho poderoso”, disse James Garvey, autor de The Persuaders: The Hidden Industry that wants to change your mind (Os Persuasores: a indústria oculta que quer que você mude de ideia, em tradução livre).
As palavras de Nayira foram repetidas várias vezes por senadores dos EUA e pela mídia. E o país, enfim, votou favorável à participação na guerra.
“A história (de Nayira) provavelmente contribuiu para inclinar a balança a favor da Guerra”, sustenta Garvey.
3. As fotos falsas na crise dos rohingya
As imagens em questão são fotos e vídeos de conflitos ocorridos há décadas, como a guerra de Ruanda, e que foram usados como propaganda para acusar os rohingyas de serem violentos.
Essas fotos foram circuladas antes do aumento da violência no norte de Mianmar, explicou a BBC.
“Foi muito chocante, difamatório, e, em grande parte, errado”, disse Jonathan Head, correspondente da BBC no sudeste da Ásia.
“Os rohingya têm enfrentado décadas de perseguição em Mianmar, onde lhes é negada a cidadania”, explicou ele.
De acordo com Head, a escassez de informações confiáveis e a dificuldade de acessar o norte do país acabaram ajudando na disseminação das imagens falsas.
O primeiro-ministro turco, Mehmet Simsek, foi uma das pessoas que tuitaram essas imagens. Depois, pediu desculpas, mas o post original já havia sido compartilhado mais de 1,6 mil vezes.
“Há uma guerra frenética nas redes sociais ao redor dos rohingya. Eu mesmo fui bombardeado com imagens muito desagradáveis que mostram vítimas de massacres, muitas das quais difíceis de verificar”, explicou Head.
Por causa da onda de violência que se seguiu, mais de 600 mil rohingya tiveram de deixar Mianmar e buscar refúgio em Bangladesh.
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