Governo Bolsonaro não apoia projeto dos EUA contra China.

6 de outubro de 2022 267

O governo de Jair Bolsonaro não apoiou a proposta de europeus e americanos de abrir um debate na ONU sobre as acusações de violações de direitos humanos na China.

Nesta quinta-feira, numa votação tensa no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o bloco ocidental conseguiu apenas 17 votos, enquanto a China somou 19 votos de seus aliados. O Brasil, porém, optou pela abstenção, assim como outros dez países, entre eles México, Índia, Argentina ou Gâmbia.

O governo de Jair Bolsonaro não explicou seu voto durante a reunião. Mas a avaliação interna do Itamaraty era de que colocar a China no radar internacional no que se refere aos direitos humanos ampliaria a tensão no cenário mundial, além de minar a capacidade de ação da ONU para lidar com outras crises.

Fontes ocidentais, porém, suspeitam que o governo de Pequim tenha feito uma forte pressão na América Latina para impedir que a região votasse pelo projeto americano e europeu

O que gerou a elaboração da proposta de um encontro oficial foi a apresentação de um informe da ONU, ainda sob a gestão da chilena Michelle Bachelet, e que constatou graves violações de direitos humanos cometidos pelo governo de Pequim. O foco era o tratamento dado à população Uigur e, de acordo com o informe, as suspeitas indicam crimes contra a humanidade cometidos pelos chineses, incluindo tortura, desaparecimentos forçados e prisões arbitrárias.

Pequim rejeitou a proposta. "O que os americanos querem é muito mais que um simples debate. Mas usar fóruns da ONU para intervir em temas domésticos", disse a delegação chinesa na ONU. "O que querem é instrumentalizar os direitos humanos", atacou

Para os chineses, o governo americano "espalha rumores e mentiras" sobre a situação de direitos humanos na China, com o objetivo de "conter desenvolvimento" do país. Para Pequim, tal proposta "não vai promover o diálogo e apenas gera mais confrontação". O regime comunista ainda alegou que tal iniciativa iria minar os trabalhos do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Já o governo dos EUA, que apresentou a proposta, insistiu que os informes oficiais da ONU sobre a situação da China justificam a necessidade de um debate. Para o governo de Joe Biden, a meta era apenas de estabelecer um "fórum neutro" para falar da situação nos territórios chineses..

Os governos dos países escandinavos também saíram ao apoio da ideia de incluir a China em um debate, além das autoridades do Japão, Holanda, Reino Unido e várias democracias. Já a França destacou a imparcialidade da ONU ao denunciar a situação de violações contra a população Uigur.... - 

Venezuela, Eritreia e Bolívia saíram em apoio aos chineses, alegando que o gesto tinha como meta uma "manipulação política" e que ampliaria a polarização do Conselho.

Querem transformar o Conselho de Direitos Humanos em palco para confrontação", declarou a delegação de Nicolas Maduro, que qualificou o ato do Ocidente como "hostil". Caracas ainda lembrou da pressão da Casa Branca para se evitar, há dois anos na ONU, qualquer referência aos EUA durante o debate sobre racismo após a morte do afroamericano George Floyd.

Cuba também votou contra a resolução e insistiu que a ação seria uma forma de potencias Ocidentais de usar a ONU para condenar a China, "com vistas a atingir metas geopolíticas". Para Havana, o informe de Bachelet é "ilegítimo" e tal debate apenas vai "aprofundar a crise" entre os países.

Fonte: Jamil Chade - Colunista do UOL.