INSS: lobista investigado recebeu dinheiro de ONG envolvida em fraude

6 de janeiro de 2026 41

Investigado pela Polícia Federal no caso que ficou conhecido como a Farra do INSS, o lobista Danilo Berndt Trento recebeu R$ 100 mil, à vista, da Sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), uma das instituições investigadas por aplicar descontos ilegais nas aposentadorias e pensões de beneficiários.

A transferência teria sido feita por Lucineide dos Santos Oliveira para conta de Danilo por meio da empresa Impacto Serviços de Apoio Adm, pertencente a ela. A companhia fica localizada na parte superior de um sobrado, na região administrativa do Recanto das Emas, no Distrito Federal. No mesmo endereço, podem ser encontradas dezenas de empresas vinculadas a outros investigados na Farra do INSS.

O depósito foi feito na conta de Danilo no banco BK Bank – instituição investigada por supostamente lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), em 2024. A informação consta em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPMI do INSS e obtido pelo Metrópoles.

Segundo a Polícia Federal, o lobista, que também é empresário, teria atuado em conjunto com o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio de Oliveira Filho, para desviar dinheiro das aposentadorias por meio de descontos irregulares nos benefícios. Ele foi convocado para prestar depoimento na CPMI do INSS em novembro de 2025.

Investigado na CPI da Covid-19

Velho conhecido do Congresso Nacional, Danilo também foi alvo da CPI da Covid-19, em 2021. À época, ele era o então diretor da Precisa Medicamentos, que intermediou a compra da vacina Covaxin pelo Ministério da Saúde.

Ao final das apurações, a CPI da Covid pediu o indiciamento dele, por fraude em contrato, improbidade administrativa e formação de quadrilha.

Segundo informações do Relatório de Inteligência Financeira (RIF) de Trento, obtidos pela coluna Andreza Matais, do Metrópoles, o homem recebeu R$ 11,6 milhões de uma empresa chamada T5 Participações LTDA – a maior fonte pagadora dele.

A empresa T5 foi constituída em março de 2020 como uma hamburgueria em Cidade Monções, em São Paulo. Dois anos depois, a empresa foi adquirida por Trento, que mudou a finalidade da companhia, aumentou o capital social de R$ 20 mil para R$ 1 milhão e alterou o endereço do empreendimento.

Em março de 2024, Danilo saiu da sociedade e deixou como única sócia Francine da Rosa. A mulher vive em uma casa simples, em Tubarão (SC). Era beneficiária do Bolsa Família e, depois, do Auxílio Brasil, até dezembro de 2022. Formalmente, é a única dona da empresa que pagou R$ 11,6 milhões a Danilo Berndt Trento.

“Dona” de outra empresa

Curiosamente, Francine também aparece como única sócia da BSF Gestão de Saúde – companhia que foi investigada na CPMI da Covid-19, sob suspeitas de irregularidades em contratos com o Ministério da Saúde.

Assim como Danilo, a BSF Gestão de Saúde recebeu Pix de investigados na Farra do INSS. No caso dela, R$ 300 mil foram repassados por meio de uma empresa pertencente a Samuel Chrisostomo, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer).

A empresa em questão é a Cifrão Tecnologia, um dos vários CNPJs criados por Samuel – preso por envolvimento nos descontos indevidos e que opera no mesmo sobrado em que estão localizadas as companhias da sócia da AAB.

Segundo um relatório do Coaf, a Cifrão Tecnologia transferiu o montante à BSF logo após receber R$ 1,6 milhão da Conafer, em outubro de 2023.

Na mesma data, 60 outras transferências imediatas saíram das contas da Cifrão. Entre elas estão Pix de R$ 150 mil para a JSM Serviços, R$ 100 mil para N & C Distribuidora de Agropecuários e R$ 22 mil à Lucineide dos Santos Oliveira, a sócia da AAB.

No mesmo período, Samuel também transferiu R$ 525 mil para a Solution BRB Nova, uma segunda empresa pertencente a ele.

A Cifrão, de acordo com o Coaf, trata-se de uma microempresa que exerce atividade de desenvolvimento de programas de computador, com faturamento de R$ 11.240,86. “No mês em análise, mesmo com nova atualização cadastral, movimentou aproximadamente R$ 1.625.759,14 a mais do que a capacidade declarada”, diz o documento.

A BSF Gestão de Saúde, por sua vez, é uma empresa com foco em consultoria e gestão de benefícios em saúde, especialmente planos de medicamentos e assistência farmacêutica.

Os repasses à vista, imediatos, além da movimentação exorbitante da Cifrão, alertaram órgãos de fiscalização que não conseguiram encontrar explicação para as transferências, levantando suspeita de ser uma empresa laranja.

Falso negativo

No relatório encaminhado à CMPI do INSS, o Coaf descreve a BSF como uma companhia indiretamente ligada à Precisa Comercialização de Medicamentos Ltda. – que se tornou alvo de uma investigação do MPDFT, no âmbito da Operação Falso Negativo.

À época deflagrada, a operação investigou o envolvimento da Precisa em um esquema atuante na Secretaria de Saúde do DF responsável por desvio de verbas públicas, fraude em licitações e superfaturamento na compra de testes de Covid-19.

Segundo a CPI da Pandemia e o Coaf, o sócio da Precisa, Francisco Emerson Maximiano, é “acusado de movimentar R$ 50 milhões com indícios de lavagem de dinheiro através de suas empresas, incluindo a BSF Gestão”.

O outro lado

Metrópoles tentou contatar os citados, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Fonte: Jéssica Ribeiro