LULA VAI OBTER UMA VITÓRIA DE PIRRO E NADA DE ESSENCIAL MUDARÁ

24 de junho de 2022 70

Desde junho de 2013 o sistema político brasileiro está agonizando. Naquele momento ficou claro divórcio entre o dia-a-dia da população e o sistema representativo. 

Bolsonaro foi eleito também enquanto parte desta crise, com os eleitores clara e conscientemente desejando implodir o sistema, ao colocarem na presidência um franco atirador que prometia ser contra tudo isso daí

A máscara do presidente já não cola mais. Ficou absolutamente clara sua devoção ao poder e seu apego ao sistema tão demonizado na campanha de 2018. 

Para tentar manter um pouco do teatro, briga com o STF, com as urnas eletrônicas e mesmo com a saúde pública. No entanto, seu abraço desesperado no centrão e sua docilidade para com a turma banqueira mostra o quanto a retórica atualmente é falha. 

O lulopetismo surfa no desastre bolsonarista e age como se não houvesse acontecido nada nos últimos anos. Na realidade, no universo do petismo é como se entre a saída de Luís Inácio da presidência em 2010 e o ano de 2022 não tivesse ocorrido nada de relevante. Tudo está como sempre esteve. 

Daí, o ex-presidente fazer exatamente o mesmo já feito antes e que se provou um rotundo fracasso. Aprendizado? Análise histórica? O petismo é incapaz de aprender, cego e alienado num personalismo exacerbadamente antiintelectual. Quem ousa apontar as contradições, os problemas, as insuficiências, as armadilhas, é logo taxado de inimigo, demonizado ou solenemente ignorado. 

Não há dúvidas hoje da vitória de Lula. Como não havia em 2018, não tivesse ele sido excluído do pleito pela prisão decretada pelo ex-herói Sérgio Moro. Ele vai ganhar não por ter projeto, o que não tem, ou por ser o melhor homem para o momento do país, o que não é. 

Vai vencer por uma espécie de reedição do efeito Vargas de 1950: olhando pelo retrovisor, o povo relembra os bons tempos e, em sua impotência, acredita que basta colocar o homem lá e tudo vai dar certo. A segunda aventura varguista terminou pessimamente, a do Lula não deve acabar muito melhor.

Na realidade, o fenômeno de Lula tem uma relação com o de Vargas justamente no fato de apontar a impotência política do povo brasileiro. Ambos, inclusive, trabalharam arduamente por essa impotência, o ditador prendendo e matando os comunistas, o líder petista enfraquecendo e desestruturando a esquerda nacional.

A impotência popular se coaduna no fato de Bolsonaro permanecer no governo mesmo após tanto absurdo feito e da situação social do país ser a pior em toda sua história. O povo aguarda pacientemente um redentor surgir das urnas para salva-lo, ao invés de marchar para o palácio e arrancar o tiranete à força. 

Mas não devemos nos enganar: 2013 já mostrou que a impotência popular pode muito rapidamente virar ira desenfreada.

O contexto do país e do mundo é hoje o pior possível. A crise capitalista se acelera para alcançar um nível catastrófico, com a possibilidade, inclusive, de uma terceira guerra mundial (a única coisa ainda capaz de salvar o capitalismo de sua derrocada). 

A situação atual está ainda mais deteriorada que a de 1929, porque não há mundialmente nem a mais pálida articulação de movimentos revolucionários. Ao contrário, o que há de organizado são forças de extrema-direita, muitas sendo até mesmo armadas pelos EUA na Ucrânia. 


No Brasil, p. ex., é candidez acreditar no desaparecimento da extrema-direita a partir da derrota eleitoral anunciada. O bolsonarismo continuará forte, com ou sem seu líder e inspirador, do mesmo jeito que o trumpismo não desapareceu nos EUA.

Em momentos de crise, a sociedade se volta para as extremidades do espectro político, buscando soluções radicais para os problemas. A infelicidade é se apresentar apenas a extrema-direita. As forças de esquerda brasileira, ou foram cooptadas pelo lulopetismo – o caso recente do Psol mostra isto –, ou são muito frágeis para se fazerem presentes. 

A ação da burguesia para sufocá-las economicamente por meio da cláusula de barreira faz aumentar sua debilidade. No entanto, apesar dos pesares, ainda resistem as candidaturas de Leonardo Péricles (UP), Vera Lúcia (PSTU) e Sofia Manzano (PCB). 

De maneiras diferentes, cumprem o importante papel de desmitificar as eleições e levar a mensagem revolucionária para as massas. Esta deve ser a tarefa principal da esquerda em qualquer pleito. Particularmente, meu voto é de Vera Lúcia, pelo importante papel desempenhado pelo PSTU junto aos trabalhadores ao longo do território nacional. 

Da centro-esquerda, Ciro Gomes é o que melhor possui um projeto para o país, tanto do ponto de vista de entender os problemas, quanto das soluções, dentro de uma perspectiva estritamente burguesa. No entanto, o fato de sua campanha não decolar mostra hoje o quanto a burguesia brasileira não tem interesse em projetos de desenvolvimento, tendo aderido, plenamente, a um modelo agroexportador, de devastação do meio ambiente e ruína social.

Por isto, a escolha para ela é entre a destruição aberta de Bolsonaro ou a destruição comedida do Lula. Arruinar tudo em câmara lenta ou rápida, eis a dúvida dos capitalistas. 

Sobre a 3ª via nem me digno a fazer comentários, não sendo mais do que factoide da mídia. 

De modo geral, esta eleição será a mais inútil da história recente do Brasil. Isto porque absolutamente nada mudará com ela, ganhe quem ganhar. 

A crise capitalista avança por debaixo de nossos pés e os dois principais candidatos estão atrelados ao mesmo projeto de poder. 

Na realidade, o projeto da burguesia brasileira vai avançar seja qual for o resultado das urnas, pois o bloco hegemônico da classe dominante está intacto e não há qualquer oposição a ele digno de nota. 

Daí ser também irreal pensar num golpe bolsonarista. Para que golpe, se Lula está dentro do esquema? Caso um candidato da esquerda combativa ganhasse, aí sim poderíamos pensar numa ameaça golpista. Ganhando Lula, ainda mais com um vice igual a Alckimin, mais fácil esperar o derretimento do petista e aplicar o velho truque do impeachment. Será um novo golpe para a choradeira despolitizante dos lulistas. 

Sabemos bem qual foi a herança do varguismo para a esquerda brasileira: tomar um golpe com zero resistência. A herança do lulismo poderá ser tão péssima quanto, pois no momento em que a crise estourar de vez e o regime político brasileiro, caduco há nove anos, finalmente ruir por completo, com a ira popular acessa, não haverá organização para interferir nos rumos nacionais. 

Neste aspecto, o principal desta eleição é antecipar nossa futura derrota, transvestida agora de vitória. Uma vitória de Pirro. (por David Emanuel Coelho)

Fonte: CELSO LUNGARETTI
A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR CELSO LUNGARETTI )