“O desinfetante natural contra a corrupção é a ação do livre mercado”

1 de junho de 2018 237

Um dos homens mais ricos do Brasil e dono da Riachuelo, o empresário Flávio Rocha decidiu ser candidato a presidente para, segundo ele, “revolucionar” o governo. Sua ideia é reproduzir no Estado o mesmo sistema que rege suas empresas. Ou seja, uma engrenagem baseada no livre mercado. Ao replicar esse modelo, ele acredita que irá azeitar a máquina pública e, assim, atender as “donas Marias”, que, de acordo com ele, é quem puxa a carruagem do Brasil. “Essa é a novidade que trago da iniciativa privada. A dona Maria é o cliente que pode tudo, inclusive nos demitir”, disse o empresário durante entrevista aos editores de ISTOÉ, na segunda rodada da sabatina com os presidenciáveis.

De cara, Flávio Rocha propõe vender as 160 estatais, inclusive a Petrobras e os bancos públicos, como o BB e a Caixa. Assim, ele deseja que o governo deixe de investir os recursos públicos na gigantesca máquina pública e possa, dessa forma, destinar os R$ 2 trilhões arrecadados com impostos no financiamento de setores essenciais. Com a venda das estatais, pode se obter, só no primeiro ano de governo, R$ 600 bilhões, para resolver os problemas emergenciais, diz. Ele também promete fazer as quatro mais importantes reformas – tributária, previdenciária, política e do Estado – logo no início do seu eventual mandato. “Quem disser que não vai fazer a reforma da Previdência estará cometendo estelionato eleitoral”. Rocha disse acreditar que só o livre mercado pode acabar com a corrupção. “O desinfetante natural contra a corrupção é a ação do livre mercado”.

DUAS HORAS NO AR Flávio Rocha foi entrevistado pelos jornalistas da Editora Três, com transmissão ao vivo pelo site da ISTOÉ (Crédito:Gabriel Reis)

Ainda na entrevista, de duas horas de duração, o candidato revelou-se a favor da intervenção militar no Rio de Janeiro, como também em Fortaleza, “onde está havendo uma caçada de policiais”, mas diz querer distância dos militares, numa clara tentativa de se diferenciar do concorrente Jair Bolsonaro, pré-candidato do PSL.

Tal como Bolsonaro, no entanto, ele também defende que a população se arme para proteger seu patrimônio. Para o presidenciável, o fazendeiro não deve ter pudores em atirar no sem-terra que invadir sua propriedade.

Vamos começar a sabatina com o caos vivido pelo País nesta semana. Há economistas dizendo que o movimento dos caminhoneiros deu início a um levante tributário no País. O senhor acha que chegamos ao limite da carga tributária suportável?

Sem dúvida. O episódio da greve dos caminhoneiros é absolutamente emblemático para nos mostrar a inacreditável orfandade em que se encontra a imensa maioria da população. O conflito que vai reger esta eleição não é do capital contra trabalho, do rico contra pobre, do negro contra branco ou do Nordeste contra Sudeste. Será entre os que puxam a carruagem, a imensa maioria dos que suam a camisa, os que trabalham, pagam impostos e geram riquezas, contra uma minoria da aristocracia burocrática que se apropriou do Estado brasileiro, que zela por seus privilégios e que não têm compromissos com o usuário do serviço público. Eu quero representar essa mudança. Em todos os projetos políticos, da extrema esquerda à extrema direita, se olha só para os que estão no alto da carruagem. A grande novidade que eu trago como contribuição da iniciativa privada, é olhar para a dona Maria, que puxa a carruagem. Nas reuniões de diretoria da Riachuelo eu colocava uma cadeira vazia na cabeceira da mesa para simbolizar a dona Maria, que é a nossa cliente e que pode nos demitir. Essa é a lógica inversa do Estado. Fico imaginando uma reunião semelhante da diretoria da Petrobras, com os diretores nomeados por partidos políticos, se algum deles tem algum compromisso com o ‘seu’ João caminhoneiro, que está abastecendo seu caminhão nas bombas com o óleo diesel, um dos mais caros do mundo.

O movimento foi legítimo?

É legitimo, mas não se pode defender a obstrução de rodovias. A greve é um direito constitucional, mas a partir do momento em que prejudicou o povo já não apoio mais. São dois instantes. Quando ela surgiu, recebeu minha total solidariedade, mas depois passou a ser oportunisticamente apropriada por setores ideológicos, ligados a corporações. As mesmas corporações que causaram a justa indignação. Está na hora de anunciarmos a privatização da Petrobras.

Mas a privatização da Petrobras levaria a empresa a atuar como uma organização independente e o governo não teria manobra nenhuma para acabar como uma greve hoje.

O mero anúncio da privatização já acalmaria o usuário na perspectiva da redução dos privilégios, dos desperdícios, da ineficiência própria de qualquer monopólio, além da corrupção que sempre existiu. O desinfetante natural contra a corrupção é a ação do livre mercado.

“Nas reuniões da riachuelo, eu colocava uma cadeira vazia na cabeceira da mesa para simbolizar a dona maria, que pode nos demitir” (Crédito:Gabriel Reis)

O senhor faria a reforma da Previdência que o governo Temer tentou fazer e não conseguiu?

Não é só a reforma da Previdência. É a reforma para atingir o funcionalismo público. É um milhão de super-aposentadorias, que representam 75% do déficit e que estão passando ao largo na reforma da Previdência. Temos que cortar os privilégios. E não é só por problemas de caixa, mas também por uma questão de justiça social. O nosso sistema previdenciário é o Robin Hood às avessas. É tirar dinheiro do pobre para manter os maiores privilégios do País.

 

 

No sistema concentrado como o nosso, o spread bancário é violento, como reduzir?

Falei que faria quatro reformas (Previdência, tributária, política e do Estado). E se eu fosse citar a próxima eu falaria da reforma do sistema bancário. Nós estamos no piso da taxa referencial, talvez a menor da série histórica, mas o spread para a ponta praticamente não se moveu. Isso se deve a um duopólio, ou talvez a cinco bancos, que representa 86% da oferta de crédito. Isso é um gargalo, que está impedindo que chegue ao Brasil a revolução das Fintechs, que era nossa esperança para termos um cenário do sistema financeiro mais concorrencial. Mas quando aparece uma Fintech mais promissora, ela é imediatamente neutralizada pela rede bancária. Acho que o BC tem tarefa importante no sentido de fazer essa regulação.

O senhor diz que é liberal na economia, mas conservador nos costumes. Gostaríamos de saber o que o senhor acha da liberação do aborto, das drogas mais leves, como a maconha, e sobre o armamento. O senhor acha, afinal, que a população tem que se armar? E o que o senhor acha da pena de morte?

Eu me alinho à imensa maioria da população brasileira. Sou sim contra a pena de morte. Sou contra o aborto. Acredito que o estatuto do desarmamento, que o povo já se manifestou claramente em 2005, com ampla maioria o rejeitando, por enxergar um viés ideológico, faz parte do marxismo cultural, que é desarmar o camponês e soltar o MST em cima. Foi fracassada a política de desarmamento. Não estou falando em dar um fuzil a cada brasileiro, mas de 2% da população brasileira, que passa pela mesma via crucis dos testes psicológicos a que um policial é submetido. Quero que possam ter porte de arma e ajudar a vizinhança na segurança pública.

O fazendeiro tem que atirar no sem-terra por exemplo?

Ele tem que ter o seu instrumento de defesa. É absolutamente cruel, com a virulência e a agressividade das invasões dos sem-terra, que você tenha um camponês totalmente desarmado, totalmente indefeso. A defesa é legítima. Deve ser dado ao camponês o direito de defesa.

“Não é o agronegócio que desmata a Amazônia: são os indígenas e os quilombolas. Os fazendeiros só ocupam 7,8% do território” (Crédito:Gabriel Reis)

E sobre a constituição de famílias poliafetivas, reconhecimento da união entre casais do mesmo sexo, adoção de filhos por casais homossexuais, enfim, essa discussão que passa pelo campo comportamental. As religiões são interlocutoras adequadas?

Não. O Estado é laico. O nosso governo vai ser laico.

Como o senhor vê a intervenção do Exército para conter a violência no Rio?

É medida extrema e necessária diante da perda do controle do Estado. Fui a Fortaleza e o quadro lá é ainda mais dramático do que o do Rio. Se mata duas vezes e meia mais do que se mata no Rio: 40 mortos a cada fim de semana. Em Fortaleza, se atingiu inacreditáveis 78 mortos para cada 100 mil habitantes. Por que não Fortaleza? Por que só o Rio? Por causa da visibilidade internacional? O caso de Fortaleza é extremo. Lá, está havendo uma caçada a policiais. É oito vezes mais perigoso ser policial do que um soldado na guerra do Vietnã ou na 2ª Guerra. É uma verdadeira caçada. É preciso prestigiar a polícia.

De 2003 a 2016, o setor produtivo recebeu de incentivos e subsídios do governo num total de R$ 420 bilhões. No mesmo período, o Bolsa-Família recebeu R$ 372 bilhões. Ou seja, os empresários receberam mais do que os mais carentes. O senhor pretende acabar com os incentivos aos empresários?

Essa é uma deformação do livre mercado. A nossa empresa, num ambiente concorrencial, para manter a equidade concorrencial, se tornou, por pressão minha, tomador de recursos do BNDES. Tomamos ao longo de 10 anos um total de R4 1,4 bilhão, que se transformaram em 200 lojas, em 13 mil empregos diretos nas nossas lojas e 60 mil empregos nos nossos fornecedores. Conosco, o BNDES não perdeu dinheiro. Nós já pagamos 90% dos empréstimos. Mas o BNDES se tornou palavrão na era petista.

Como o sr. vê o BNDES como financiador dos projetos de infraestrutura?

O que pode a curto prazo destravar o gargalo dos financiamentos necessários à infraestrutura, que é outro detrator da nossa competitividade, é a redução das travas burocráticas regulatórias. Não é falta de dinheiro. Dinheiro está abundante no mundo. Existem travas ambientais, em decorrência da legislação ambiental, da época que fazia sentido a floresta ficar intocada. A biotecnologia na Alemanha, que tem 10% da nossa área de floresta, vai representar em 2030 algo em torno de 25% do PIB. A biodiversidade pode representar grande avanço no nosso PIB a curto prazo, mas existem travas ambientais, com uma lei defasada.

A sua observação pode ser válida, mas os satélites do INPE mostram que as florestas na Amazônia estão sendo derrubadas vorazmente.

Essa é uma injustiça que se comete contra o Brasil. Dois terços do nosso País estão do jeito que Pedro Álvares Cabral encontrou. Na Europa é 0,7%. Por que eles não preservam as florestas deles? Nós não destruímos nada. Nós temos apenas 7,8% do nosso território ocupado com a agricultura.

Mas os relatórios do INPE sustentam que o volume de derrubada, queimada e destruição da Amazônia Legal continua em alta.

Esses números estão em áreas de invasão. Esse é o problema da proliferação de quilombolas.Temos 14% de áreas indígenas no Brasil. E são eles que estão desmatando.

 

Veja o que diz Flávio Rocha sobre outros temas:

Pedro Parente

PRB, Odebrecht e Lava Jato

Possibilidade de aglutinação de candidatura

Desemprego

Participaram da sabatina os jornalistas: Carlos José Marques, Carlos Sambrana, Camila Srougi, Germano Oliveira, Mário Simas Filho, Ralphe Manzoni Jr e Ricardo Boechat

Leia a íntegra da sabatina com Flávio Rocha (PRB)

Não teríamos como deixar de começar esta sabatina com a situação que o País vive neste momento. Há economistas dizendo que o movimento dos caminhoneiros deu início a um levante tributário no País. O senhor acha que chegamos ao limite da carga tributária suportável pelos brasileiros e que outras categorias podem tomar medidas extremas como os caminhoneiros?

Sem dúvida. Esse episódio da greve dos caminhoneiros é absolutamente emblemático dos motivos que me tiraram da minha vida empresarial por constatar a inacreditável orfandade em que se encontra a imensa maioria da população brasileira. O conflito que vai reger esta eleição não é capital contra trabalho, não é rico contra pobre, não é negro contra branco ou Nordeste contra Sudeste. É entre os que puxam a carruagem, a imensa maioria dos que suam a camisa, os que trabalham, pagam impostos e geram riquezas, contra uma minoria de uma aristocracia burocrática que se apropriou do Estado brasileiro. O Estado Corte, o Estado que zela por seus privilégios e que não têm compromissos com o usuário do serviço público. Eu quero representar essa mudança. Em todos os projetos políticos, da extrema esquerda à extrema direita, estão olhando para cima dos que estão na carruagem. A lógica de ganhar eleição no Brasil é atender as corporações que se apropriaram do Estado. A grande novidade, que eu trago como contribuição da iniciativa privada, é olhar para a dona Maria. Essa foi a marca da administração na minha empresa. Nas reuniões de diretoria da minha empresa eu colocava uma cadeira vazia na cabeceira para simbolizar a dona Maria, que é a nossa cliente, que pode demitir ou promover cada um de nós. Essa é a lógica inversa do Estado. Fico imaginando uma reunião semelhante da diretoria de um monopólio estatal do Petróleo por exemplo, onde aqueles diretores, nomeados por partidos políticos, se algum deles tem o mesmo compromisso com o ‘seu’ João caminhoneiro que está abastecendo seu caminhão nas bombas com o óleo diesel dos mais caros do mundo, quando poderíamos ter um dos mais baratos. Então é essa orfandade que faz com que o nosso projeto represente a grande novidade da política brasileira.

O que o senhor faria se estivesse na presidência da República?

O diagnóstico é muito simples. Chegou a conta do petrolão. A ineficiência do monopólio, que é o habitat natural da corrupção e é também a zona de conforto da ineficiência. Eu tomaria a medida necessária, que é a solução definitiva para esse problema: submeter esse setor essencial, de óleo e gás, que impacta a competitividade de todos os outros setores, a um choque de eficiência que só a concorrência traz, só o livre mercado. Está mais do que na hora de anunciar a privatização da Petrobras.

Vou insistir. O senhor está diante de uma greve, que levou o colapso a toda a vida do brasileiro, o que o senhor faria?

No curto prazo, torna-se uma combinação explosiva a chegada da conta do petrolão, com suas ineficiências acumuladas, com a dívida que até pouco tempo atrás fazia da Petrobras a empresa mais endividada do Brasil e o momento das flutuações de câmbio e do barril do petróleo, que levou a uma tempestade perfeita. Isso fez explodir a justa indignação. No curto prazo tem que haver um pulmão de amortecimento dessas flutuações para evitar que tudo isso chegue à bomba, gerando a indignação que gerou. Essa é uma medida provisória. A medida sustentável, definitiva, é a privatização da Petrobras para que os freios e contrapesos do livre mercado atuem, levando à eficiência e à redução do preço final do combustível, em benefício do usuário.

Mas a privatização da Petrobras levaria a empresa a atuar como uma organização independente e o governo não teria manobra nenhuma para acabar como uma greve hoje.

O mero anúncio da privatização já acalmaria o usuário na perspectiva da redução dos privilégios, dos desperdícios, da ineficiência própria de qualquer monopólio, além da corrupção que sempre… O desinfetante natural contra a corrupção é a ação do livre mercado. Mas isso é a médio prazo. No curto prazo, acho que as medidas anunciadas pelo governo são paliativas e necessárias para reduzir o impacto da explosão dos preços.

O que interessa ao consumidor não é o preço final na bomba?

Exatamente. Por isso, as medidas de curto prazo são também necessárias, mas não são sustentáveis, porque a conta vai chegar mais uma vez. E isso onera o País. Quem paga a conta é o contribuinte. E esse ônus será repassado para todo o resto da sociedade brasileira. Para evitar que essas ineficiências e esses desperdícios continuem impactando o preço, daí a urgente necessidade de anunciar a solução definitiva, duradoura e sustentável, que é entregar esse setor essencial e transversal da economia à sabedoria suprema do livre mercado.

Como o senhor então avalia a política de reajuste diário da Petrobras que está na origem dessa crise? Essa política não é de livre mercado como o senhor defende?

Mas incompatíveis com as ineficiências do monopólio. Num regime de pluralidade concorrencial, com vários players, nos vários elos da cadeia de suprimentos, cada empresa pode, a seu julgamento, atenuar, retardar ou represar determinados impactos, como o cambial ou no preço do barril do petróleo, ajustando e sempre beneficiando o consumidor. Se em determinada empresa do setor de refino, por exemplo, resolver ser mais ou menos agressiva no repasse de um insumo por uma variação cambial, ela pode beneficiar o consumidor na medida que outra empresa seja mais ou menos agressiva. São tantas as variáveis que atuam no complexo como é do óleo e gás que somente a sabedoria do livre mercado sabe lidar com todas essas verdades. Mas a certeza que se tem é que o grande ganhador é sempre o usuário, é a dona Maria do setor, é o caminhoneiro que está abastecendo o seu caminhão na bomba de combustível.

O senhor fala de livre mercado, mas o objetivo final é o lucro. Já o Estado é um ente que tem como produto final o bem estar social. Num País que tem grande parte de sua rede de transporte baseada no sistema rodoviário, que depende dos derivados do petróleo, não é mais correto se ter a justiça social acima do lucro?

A visão egoística do lucro se exacerba quando existe um único agente econômico monopolista. Essa busca do lucro é saudável ganância e é o motor da humanidade e todos perseguem o lucro através dos caminhos saudáveis, na busca da produtividade, fazer mais com menos. E quanto mais plural, quanto mais diversificada, for essa busca legítima do lucro…O lucro na empresa privada se dá de uma forma mais direta, mais consensual, que é buscar a satisfação do seu cliente. Por isso, a empresa privada é mais eficiente do que um monopólio estatal. O caminho mais curto para o lucro é a satisfação das donas Marias. É a satisfação do seu usuário final do seu serviço ou dos bens que fornecemos. Esse é o motor da humanidade. É isso que faz a busca permanente dos ganhos de produtividade, de eficiência, que deve estar em todos os setores, inclusive no setor crucial como é o do óleo e gás.

O senhor fala na necessidade de se cortar a carga tributária, que hoje chega a 33% do PIB e os tributos são os responsáveis por termos um combustível tão caro no Brasil. Mas como a carga tributária com as demandas sociais tão grandes?

Por isso eu me referi à adoção medidas emergenciais de curto prazo como temporárias e provisórias. E como elas são insustentáveis, há que se perseguir a solução definitiva, que é a busca de parceiros, da privatização do setor, inclusive com a correspondente vinda de investimentos para o País. A explosão da carga tributária vem de alguns anos. Eu me lembro quando passei pelo Congresso como deputado de 1986 a 1994, e inclusive fui um dos caçulas da Assembléia Nacional Constituinte, nós nos indignávamos com os escorchantes 22% do PIB que era a carga tributária na época. De lá para cá, justamente pela lógica de se fazer política olhando para os que estão em cima da carruagem, olhando para os interesses corporativos e a disseminação dos privilégios que estão incrustados no Estado brasileiro, essa carga tributária bate recordes sucessivos. E não é só carga tributária. É o déficit que também explode ano a ano. Um País é a proporção entre sua força de tração, que são aqueles que produzem, os trabalhadores e aqueles que empreendem, e o peso do Estado. No Brasil, se considerarmos a carga tributária, mais o déficit e mais o peso dos monopólios estatais, que são mais uma perversa forma de tributação, vamos que de forma totalmente diferente dos países com os quais a gente compete, nós já temos o peso da cruz estatal maior do que sua força de tração. Nos países emergentes, essa realidade da carga tributária é da ordem de 15% a 20% do PIB. Ou seja, são países que têm de 80 a 85% de força de tração. Essa proporção entre força de tração e o peso do Estado é absolutamente preponderante para dar condições a um País para competir. Eu me lancei neste projeto político para ser o guardião da competitividade. Nós não vamos conseguir gerar os empregos que a gente precisa, e até o financiamento do Estado que a gente precisa, sem a gente colocar o Brasil nos trilhos da competitividade. O Brasil perdeu 50 posições no ranking de competitividade em cinco anos. Somos o 153º País menos livre e consequentemente menos próspero do mundo. Estamos no pelotão dos 30 países mais hostis ao investimento. Estamos na má companhia da Venezuela, da Coréia do Norte, Somália, Cuba. Mas podemos andar rapidamente. Primeiro, redesenhando o Estado brasileiro para a lógica das donas Marias. E nós temos um Estado que foi projetado para os privilégios da Corte de Brasília. E isso vai nos levar, a partir de um projeto de uma folha em branco, com um Orçamento base zero, a gente pode ter um Estado que dê conta da Saúde, da Educação, Segurança Pública e Justiça, com uma carga tributária em torno de 25% do PIB. Mas precisa inverter a lógica em 180 graus. Ao invés de desenharmos um Estado para os privilégios da Corte, temos que ter um Estado voltado para o usuário do serviço público, que está morrendo nos hospitais, morrendo de bala perdida nas ruas pelo caos da segurança pública.

Nós temos um problema real que é o déficit fiscal, que só este ano deverá ser de R$ 150 bilhões e para o próximo ano será ainda maior. Como reduzir esse déficit reduzindo tributos? O presidenciável Ciro Gomes disse no Roda Viva que vai tributar dividendos e taxar as grandes fortunas. Só o Brasil e Estônia não tributam ganhos sob capital. Como resolver essa bomba fiscal?

O problema do déficit fiscal é explosivo e jamais terá solução sob a ótica do quê que é bom para a Corte de Brasília. A solução é redesenhar o Estado para a lógica da imensa maioria da população brasileira que puxa a carruagem….

O senhor poderia falar onde corta, quem demite. O senhor acabaria com a estabilidade dos funcionários públicos. Como o senhor ordenaria o remédio para os problemas?

São três coisas fundamentais. A reforma da Previdência é absolutamente urgente. Dizer que não vai se fazer a reforma da Previdência é o prenúncio de um estelionato eleitoral. A reforma da Previdência, por uma simples visita às quatro operações fundamentais, se nota que é fundamental atacar questões que este governo não atacou.

O senhor faria essa reforma que o governo Temer tentou fazer e não conseguiu? Ou vai fazer uma reforma diferente?

Não é só a reforma da Previdência. É a reforma para atingir o funcio