Uma gestão insana

14 de maio de 2021 618

“O homem que se acha Napoleão tem sempre o mesmo perfil. Autoritário, caprichoso, colérico. Imperial. É o senhor do Universo. Seu poder é ilimitado. Tudo deve se curvar à sua vontade. Sua expressão é grave, não cessa de dar ordens, exige a devoção de acompanhantes que de maneira geral ele despreza.” Essa não é uma definição laudatória do general que mudou a face da Europa. São palavras da francesa Laure Murat em sua história da loucura. E cabem para entender Jair Bolsonaro, 200 anos depois, que em Brasília também exibe delírios de grandeza.

DEVASTADOR Chefe da Anvisa, Antônio Barra Torres confirmou no dia 11 a tentativa do presidente de mudar a bula da cloroquina (Crédito:Edilson Rodrigues)

Napoleão instaurou um regime de medo e ameaça. Aplicou um golpe e explorou as tentativas de assassinato que sofreu. Ele mesmo se coroou, já que não reconhecia a autoridade de ninguém. São imagens que lembram Bolsonaro. O presidente deu nova mostra de ambição desmedida e desatino na última semana. Disse que já estava com um decreto pronto para ignorar a autoridade de governadores e prefeitos na condução da pandemia e governar sem o constrangimento imposto pelo STF. É mais uma ameaça contra a democracia, desta vez mais explícita. Não foi a única manifestação delirante. Na semana em que o País chegou a 430 mil mortos, o mandatário se sentiu à vontade para fazer um churrasco com amigos e exibir-se de moto, sem capacete. Já estimula novas manifestações de apoiadores para se contrapor à comissão que ameaça seu governo no Congresso. Mais uma vez lançou suspeitas sobre o pleito de 2022. E emendou: “Só Deus me tira daqui”.

EM FUGA O general Eduardo Pazuello no dia 15 de março: sem comparecer à CPI e em busca de habeas corpus (Crédito:Cristiano Mariz)

Novas ameaças do presidente

Ainda há um longo caminho para que o quadro completo da irresponsabilidade que levou à tragédia na saúde seja concluído pela CPI da Covid. Levará, espera-se, à responsabilização dos culpados por meio de um relatório que será, ao mesmo tempo, uma peça juridicamente consistente e politicamente eficiente. Enquanto a chapa esquenta, o presidente mais uma vez perdeu a chance de diminuir a temperatura da crise e abrir pontes com as outras instituições. Ao contrário, dobrou a aposta negacionista. Chamou a CPI de “xaropada” e tachou de “canalhas” os senadores que discutiam a cloroquina. Também comparou o uso desse remédio com “beber Coca-Cola quando se tem dor no estômago”. Insinuou que seu “bucho todo corroído” o salvou da facada sofrida na campanha de 2018. Atacou Renan Calheiros, relator da CPI, chamado de “vagabundo”. São declarações destemperadas, que ao mesmo tempo revelam desprezo pelo Congresso e nervosismo com a situação. Mais uma vez mostram despreparo e alienação, o que não se devia esperar de um presidente em uma situação que pode até levar ao seu impeachment. Para o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, Bolsonaro também reage à pesquisa Datafolha que o coloca em larga desvantagem em 2022. “Está completamente desequilibrado”, diz.

Ex-aliados apontam características perigosas de Jair Bolsonaro como crueldade, manipulação, indiferença ao próximo, mania de perseguição e narcisismo exagerado

Juristas e parlamentares há muito tempo apontam a incapacidade do mandatário para lidar com situações complexas. O psiquiatra forense Guido Palomba, ex-presidente da Academia de Medicina de São Paulo, vai ainda mais longe e associa o presidente claramente, por diversas evidências, à psicopatia. Esse transtorno de personalidade, na opinião do especialista, descreve vários comportamentos do mandatário. O mais gritante é a falta de empatia, estampada pelas inúmeras manifestações em que mostrou indiferença pelas vítimas da tragédia, chocando o País. Outro aspecto é a vaidade exagerada, que faz o portador desse desvio de comportamento não tolerar contrariedades. Outra característica é a agressividade, que o torna mal-educado e provocador. A “inteligência limítrofe” faz o psicopata praticar atos bizarros, por teimosia. Também não reconhece erros. Se volta atrás, é por estratégia momentânea. Na opinião do psiquiatra, o psicopata não distingue o certo do errado quando ocupa cargo público. Só lhe interessa o poder, daí o fato de tornar-se tirano. Já em funções militares, desobedece e desacata a autoridade. É rancoroso e vingativo. Conforme os manuais, não se preocupa nem demonstra responsabilidade com o futuro daqueles a quem deve cuidar.

Essas definições se encaixam de forma rigorosa ao comportamento presidencial, independentemente de um diagnóstico preciso a ser chancelado por especialistas. É o que defende há mais de um ano o jurista Miguel Reale Júnior, quando o presidente começou a participar de manifestações contra o Congresso e o STF causando aglomerações. Na época, Reale já dizia que o presidente deveria se submeter a uma junta médica para saber se está em seu pleno juízo e o Ministério Público, requerer um exame de sanidade mental para o exercício da profissão.

O espanto com as reações estapafúrdias de Bolsonaro também mobilizou o deputado Fausto Pinato, presidente da Frente Parlamentar Brasil-China. “Penso que estamos diante de um caso em que recomenda-se a interdição civil para tratamento médico”, afirmou ao saber que o presidente tinha responsabilizado a China pela pandemia por causa de uma “guerra biológica”. Isso quando a CPI já colhia os primeiros depoimentos e a falta de imunizantes angustiava a população. Essa é mesma opinião de ex-aliados que conhecem o presidente a fundo. Para o deputado Júnior Bozzella (PSL), “assim como um psicopata, ele parece normal. Apenas um pouco excêntrico, mas de certa forma cativante. Só que essa casca esconde um Bolsonaro cruel, manipulador, indiferente ao próximo e, por isso, perigoso”. Outra ex-apoiadora, Joice Hasselmann aponta sua “gigantesca mania de perseguição” e o “narcisismo exagerado”. Ela diz que é procurada por psiquiatras há meses para traçar o perfil do mandatário. Por isso, propôs uma PEC da Insanidade destinada a destituir qualquer presidente por “incapacidade mental”. É inspirada na 25ª Emenda da Constituição dos EUA, que prevê a transferência de poder para o vice-presidente no caso de doença física ou mental. “Seja pelos crimes de responsabilidade, seja por sua suposta condição de insanidade física ou mental, um eventual processo de impeachment tem natureza política e cabe aos atores políticos assumirem a decisão. Não é um atestado médico que vai resolver isso”, contrapõe-se Carlos Toledo, procurador e professor de Direito Constitucional da Universidade São Judas Tadeu. Mas outros discordam. Paulo Machado Guimarães, da ADJC, associação de Advogados e Advogadas pela Democracia, afirma que a entidade acionou o Ministério Público Federal para a interdição do presidente. “Pela sua conduta, ele não tem condição de continuar no cargo por deficiência na tomada de decisões.” Para o psicólogo Roberto Debski, o presidente exibe um comportamento de superioridade, como se fosse o dono da verdade, nada solidário para o sofrimento das outras pessoas. “Fico imaginando se ele mudaria de opinião caso a Covid vitimasse algum parente mais próximo, o que por sorte não aconteceu. Até o momento vemos alguém sem a capacidade de compaixão.”

CPI fecha o cerco

Enquanto Bolsonaro esbraveja, a CPI segue seu curso. Está consolidando as provas de que o presidente impediu o Ministério da Saúde de combater com eficiência a doença. A narrativa do crime em progresso está sendo abastecida pelos próprios ex-aliados do presidente. O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, deu o depoimento mais comprometedor. Mostrou que discorda das atitudes de Bolsonaro. Mais do que isso, confirmou uma suspeita que havia sido levantada pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta uma semana antes: a de que o Planalto patrocinou, à revelia da Saúde, uma mudança na bula da cloroquina para uso contra a Covid-19. Uma atitude criminosa e irresponsável que foi brecada de última hora, mas não impediu que o bolsonarismo continuasse a propagandear esse fármaco como remédio milagroso. Essa revelação mais uma vez joga luz sobre a existência de um “gabinete paralelo”, que teria preparado a mudança na bula. Está claro que o governo não considerou urgente a compra de imunizantes. Essa pode ser uma das razões para o pânico do general Eduardo Pazuello, que evita a todo custo sua inquirição. Escapou da primeira convocação, no dia 5, alegando a necessidade isolamento após o contato com infectados. Mas foi flagrado em reunião com o ministro da Secretaria-Geral, Onyx Lorenzoni, o que irritou senadores da CPI. Para o dia 19, está planejando outra fuga. Quer pedir um habeas corpus ao STF que no mínimo garanta o direito de ficar calado. Sua situação é delicada, pois pode ser responsabilizado diretamente pela crise. A intenção de tirar sua defesa da AGU, para ser feita por um advogado próprio, mostra a tensão que existe atualmente entre ele e o Planalto.

“O presidente não é uma pessoa irresponsável, desequilibrada e sem noção do mundo. Pode ser um caso de grave doença mental” Fausto Pinato, deputado federal (Crédito:Pedro Ladeira)

Em apenas duas semanas, a CPI conseguiu abalar ainda mais o presidente e agravar suas reações. Seja uma versão cabocla de Nero, Calígula ou Napoleão de hospício, ele deve ser responsabilizado por suas atitudes. Em 1840, quando os restos do imperador francês foram transportados à França, uma onda de delírios de grandeza se espalhou pelos asilos. O fenômeno foi classificado de “monomania orgulhosa”. Atualmente, esse mal parece criar raízes, inspirar fanáticos e contaminar as redes sociais no Brasil, terreno fértil para alucinações. Bolsonaro não atua mais no plano real ao se embriagar com delírios de grandeza, brigar com a realidade e prever sua eternização no momento em que o governo esfarela. Ele não está em busca de uma causa, é o sintoma de uma moléstia. Que seu Waterloo não tarde.

O novo baile da ilha fiscal

Enquanto a população permanece isolada à espera das vacinas que não foram compradas, ou está em luto pelos seus parentes mortos, o presidente comemora. O churrasco do Dias das Mães no Palácio do Alvorada, no dia 10, foi só felicidade. O presidente e seus convidados aproveitaram o sol na piscina, participaram de um carteado e comeram uma picanha que custa R$ 1.799,99 o quilo — valor 70% superior ao salário mínimo.

SEM MÁSCARAS  Michelle Bolsonaro e convidados participam de carteado e ignoram o distanciamento social no Dia das Mães

 1 de 4 SEM MÁSCARAS Michelle Bolsonaro e convidados participam de carteado e ignoram o distanciamento social no Dia das Mães

 

TÁ LEGAL  A primeira-dama Michelle Bolsonaro ao lado do “Churrasqueiro dos Artistas”

 2 de 4 TÁ LEGAL A primeira-dama Michelle Bolsonaro ao lado do “Churrasqueiro dos Artistas”

 

OSTENTAÇÃO  O churrasqueiro Tchê e a picanha  “Mito”, que é feita do gado da raça wagyu, de  origem japonesa, e custa R$ 1.799,99 o quilo

 3 de 4 OSTENTAÇÃO O churrasqueiro Tchê e a picanha “Mito”, que é feita do gado da raça wagyu, de origem japonesa, e custa R$ 1.799,99 o quilo

 

TUDO AZUL  Jair Bolsonaro se diverte na piscina do Palácio da Alvorada no dia 10, após passeio com motociclistas

 4 de 4 TUDO AZUL Jair Bolsonaro se diverte na piscina do Palácio da Alvorada no dia 10, após passeio com motociclistas

 

 

O rega-bofe foi divulgado nas redes sociais da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e de outros convidados. Também comemorou o próprio cozinheiro, Tchê, o “Churrasqueiro dos Artistas”.

“Dia das mães com o nosso presidente Jair Bolsonaro”, exultou. O profissional, que é
de Belém do Pará, aproveitou para fazer propaganda do corte exclusivo. A picanha “Mito”,
que é embalada com foto do mandatário, é feita com gado da raça wagyu, de origem japonesa.

Os participantes, claro, ignoraram as regras sanitárias e circularam sem máscaras ou distanciamento. Antes da festa, o presidente fez um passeio de motocicleta por Brasília. Juntou centenas de motoqueiros, provocando aglomeração de apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. Ele disse que pretende fazer manifestações semelhantes em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. É mais uma demonstração de falta de respeito com a sociedade.

A família real britânica, por exemplo, sempre deu o exemplo e mostrou rigorosa disciplina e solidariedade nos momentos de sacrifício coletivo pelos quais o país passou, incluindo duas guerras mundiais. Aqui, as vítimas da pandemia recebem outra mensagem: deboche.

Fonte: Marcos Strecker e Eudes Lima